O hippie investidor

hippie bus

John, are you up there?

John é um senhor britânico que está “aposentado”, como ele faz questão de frisar, há quase 50 anos. O desfecho do seu último dia de trabalho, ele me contou em uma tarde de dezembro, no calor apavorante do verão de Buenos Aires, lá no bairro de San Telmo, na calle Chacabuco, número 1080.

Continuar lendo

Anúncios

Sobre a manutenção das coisas

Tags

,

Exatos 4426 dias se passaram desde a última vez que olhei para aquele céu cinza.

“Ele continua o mesmo”, logo pensei.

“Mas eu mudei profundamente”, conclui em seguida.

O menino que outrora chegara com cara de assustado, voltava depois de todo esse tempo com barba no rosto, um sorriso de palhaço e lágrimas de orgulho.

Se há mais de seis anos eu pisava na terra celta sem falar uma frase sequer em inglês, agora eu retornava de cabeça erguida e com uma revista debaixo do braço que mostrava a minha primeira reportagem assinada em inglês. Continuar lendo

Nunca acreditei em Papai Noel

Tags

Desde o último dia 16 de dezembro, tenho feito sistematicamente um exercício de memória. Tento relembrar o que eu estava fazendo exatamente há um ano, quando saímos de casa com um carro cheio de tralhas para filmarmos um documentário sobre uma viagem ao Acre. A primeira pessoa do plural refere-se aos amigos Bruno Graziano, Paulo Silva Junior e Raoni Gruber, com quem dividiria 45 dias de muitas histórias. Continuar lendo

Mais alguma coisa, senhor?

Tags

Image

Dentro da sacola plástica, havia uma calça preta de brim que parecia ser um ou dois números maior. A camiseta polo cor de amarelo mostarda trazia dois botões, detalhes em vinho na gola e duas listras brancas que desciam pelos ombros e circundavam a manga. O boné de tecido mole com a pequena logomarca completava a indumentária. Do Brasil, eu havia trazido um sapato preto, de sola grossa, o mais confortável que havia na loja, conforme me convenceu o vendedor. Continuar lendo

Eu deixei lá na Bahia

Tags

, , ,

Texto: Milton Leal
Fotos: Edson Ribeiro

Um grupo de nativas aguardava a primeira canoa do dia para atravessar o rio. Cheguei caminhando tranquilamente, com meus pés encardidos. Do lado de fora da mochila, dependurado pelos cadarços, meu par de tênis – que no início desta viagem fora tanto exigido – jazia pendularmente, enquanto eu vestia as chinelas impregnadas pelas ruas de areia do pequeno vilarejo de Caraíva. Continuar lendo

3 Luas e 5 Sóis

Tags

, , , , ,

Devaneios de uma viagem de ônibus entre Rio Branco (AC) e São Paulo.

Bem-aventurados os que se embevecem com o lento e trepidante passar de paisagens.

Ó recompensas dos que viajam por dias e noites:

O irromper e o descenso solar com suas diferentes tonalidades no rebaixar da latitude.

A lúgubre noite sem nuvens, pintada por esmaecidas e incontáveis estrelas. Sigo a Oeste, depois a Sul, do velho Cruzeiro.

A Amazônia dura dois dias aqui nesta janela. Vai perdendo força até ser substituída pela BOImazônia.

O trio de araras-azuis rasgando o vento seco do cerrado. Fazem a curva ligeiras, desfilando suas amareladas penas escapulares.

O vasto e horizontal milharal, seguido pelo bicolor algodoal. Que segue por milhas e milhas até encontrar o canavial.

Quão magnânimo és tu, ó Sol, com seu vermelho-alaranjado-amarelado-róseo nascer e poer. Paralisa minha respiração como se fosse uma morocha esbelta a caminhar pelo calçadão da minha segunda cidade favorita.

À Serra da Petrovina que precede o Araguaia, um viva!

Tomo um café em todas as cidades que paramos para deixar e receber viajantes. Bem-vindos! Até logo!

Não quero dormir. O céu é demasiado lindo para não ser observado. O dia é demasiado vivo para não ser contemplado.

Me perguntam de onde venho e para onde vou. A resposta é simplória: de lá para cá ou de cá para lá.

Me perguntam por que não o avião? Porque voar não é viVER.

Por fim: abençoa-me água torrencial paulista que descende da massa cinzenta.

O Iraque que não sai na mídia

Tags

, , ,

Enxuguei o suor da testa, passei a língua ao redor dos meus lábios ressecados pelo estúpido e constante Sol de mais 40 graus e entrei em uma “casa de chá” para escrever este texto. Confesso que não sabia por onde começar, tantas foram as impressões e histórias que ouvi no país que um dia já foi de Saddam Hussein. Não exagerei quando escrevi em meu diário que “vivi, senti e pensei muito mais durante uma semana no Iraque que em quase quatro meses de andanças pela Europa”.   Continuar lendo

O homem da caverna era mais feliz que nós?

Tags

,

Saysha vestia um chapéu de “cowboy”, camisa preta para dentro da calça jeans desbotada e tênis gasto, com o solado aberto nas laterais. Metralhando os visitantes com seu inglês decoreba, que aprendeu para garantir o sustento trabalhando como guia turístico, começou a explicar a origem daquela cidade construída há 4 mil anos (!!!) pelos hititas, povo que habitou por muitos séculos o que hoje compreende a Turquia central e também a costa leste do mar mediterrâneo, na atual região da Palestina. Continuar lendo

Perdendo os cabelos em Istambul

Tags

Não consigo adjetivar minha sensação quando desci do ônibus na rodoviária central de Istambul. Nasci e cresci em São Paulo. Conheço bem e sempre estive em compasso com o ritmo acelerado de uma cidade com muitos milhões de pessoas. Por anos, frequentei populosos estádios de futebol; nos meus 18 anos, cheguei a trabalhar em uma loja que minha mãe tinha na rua 25 de março, considerada o maior formigueiro a céu aberto da América Latina; morei na rua Augusta (que saudade!) e vivi as intermitentes vibrações paulistanas. Eu pensava que tinha credencial para encarar Istambul. Mas ela me atropelou. Continuar lendo

Se lhe oferecerem dinheiro na Bulgária, faça que não com a cabeça

Tags

Por alguma razão que não sei explicar, a maioria dos ônibus de viagem que circulam na Europa não tem banheiro. Não importa se a viagem vai durar 10 horas, a chance de você passar apuros é grande. No início da tarde de um domingo de sol, com aquela sensação de que a minha bexiga explodiria se eu desse mais alguns passos, desci na cidade de Varna, que fica na costa da Bulgária. Encontrei rapidamente uma rua não movimentada, escolhi a árvore que parecia mais seca e aliviei a tensão. Continuar lendo

Você quer um palácio? Vá à Romênia

Tags

Tem sido comum chegar a cidades que eu nunca ouvi falar na minha vida. Às vezes, aprendo a pronunciar seus nomes momentos antes de dar os primeiros passos em suas calçadas. Foi assim em Aarhus (Ôrrus), na Dinamarca, em Wroclaw (Vrost-Vav), na Polônia, Keszthely (Késirei), na Hungria, e também com a tal Timisoara (Timichoara), que tem cedilha no S, na Romênia. Continuar lendo

O cheiro da câmara de gás

Tags

Sala da câmera de gás de Auschwitz I

Meus pelos do braço eriçaram-se quando li, na entrada daquele bloco retangular de concreto, o aviso aos visitantes. Em polonês, hebraico e inglês, a placa pedia silêncio em respeito às centenas de milhares de pessoas mortas pelo regime nazista naqueles 100 metros quadrados. Fiquei congelado por alguns segundos, relendo a clemência. Meu estômago remexeu, senti um estranho mal estar, enxuguei o suor do rosto, esfreguei os olhos com força, fazendo careta, e disse a mim mesmo que seria apenas por alguns minutos. Continuar lendo

Quando tudo começa a ficar parecido…

Tags

,

Abri o computador na rodoviária de Wroclaw e fiquei um longo tempo olhando para o arquivo em branco, tentando tirar alguma coisa de dentro de mim. Três incansáveis moscas me rodearam, por algum motivo, durante boa parte das 8 horas que tive que esperar para tomar o ônibus para Cracóvia. Eu tinha tempo suficiente para escrever, mas nada me vinha à cabeça. Pensei que talvez fosse um bloqueio criativo que poderia ser vencido com um copo de café, mas depois de três deles nada aconteceu e eu fiquei mais agitado que de costume. Continuar lendo

Pedido de desculpas

Tags

Lembro-me muito bem quando meu professor de literatura do colegial nos ofereceu como opção de leitura para as férias o ardiloso “Fausto”, do alemão Goethe.

– Gostaria que lessem, porque é um dos livros mais difíceis que terão pela frente em sua vida. E para entender obras densas, precisamos relê-las muitas vezes. Então, comecem agora que são jovens – disse ele mais ou menos assim, com seu bigode preto penteado e seu jeito intelectual. Continuar lendo

O trem do arrependimento

Tags

Abri os olhos com dificuldade. Eles estavam pesados, fechavam por si só. O sono de poucas horas fora muito interrompido pelo sacolejar do vagão número 15, o último do trem. A poltrona de ferro que não reclinava contribuiu para o desgosto. O banheiro, fechado porque estava quebrado ou quebrado porque estava fechado, também não ajudou em nada. 700 quilômetros por 30 reais, ou seja, 0,04 centavos por quilômetro. Na proporção da vida, a regra geral diz que quanto menor o coeficiente, mais penoso será o processo. Continuar lendo

O último suspiro do comunismo russo

Tags

Lá se vão 20 anos desde que o comunismo soviético colapsou. A era vermelha atualmente existe apenas nos museus, livros e na memória daqueles que viveram o regime. Lênin transformou-se em estátuas, Stálin em demônio e Gorbachev em Ali Babá.

Entre a maioria dos jovens russos, o assunto é dado como morto. A nova geração estuda os acontecimentos – mais que históricos – como se fossem fórmulas matemáticas, que são esquecidas depois do exame. Continuar lendo

Suando pelado na Finlândia

Quando me dei conta, éramos seis finlandeses, cinco finlandesas e eu, todos pelados dentro da sauna.

– Vocês não têm vergonha de ficar nus? – perguntei.

– Como assim, vergonha? Por quê? ­– indagou incrédula minha amiga.

– No Brasil, nós não fazemos isso geralmente.

– Eu já vi todos os meus amigos e amigas pelados. É comum. Não existe duplo sentido. Tomar sauna desse jeito é muito bom e nadar no lago pelada é melhor ainda. Continuar lendo

A estranha estatística do metrô de Estocolmo

Tags

Sempre falei, em um sentido amplo, que sorte é para os fracos. Apesar disso, eu realmente me senti sortudo quando a francesa disse que me daria carona de Gotemburgo até Estocolmo no exato dia em que eu planejara chegar à capital sueca. Andei 450 quilômetros sem pagar um centavo em um dos países mais caros do mundo. Mas a sorte pode perecer rapidamente. Continuar lendo

Tese + Antítese = Síntese

Tags

,

"Como muitos pássaros, mas diferente de muitas espécies, os humanos são uma espécie migratória"

É inescapável ser questionado sobre o que estou fazendo em cada cidade que chego. As pessoas querem saber o que me levou a visitar o local em que elas nasceram. As perguntas costumam ser as mesmas. As minhas respostas são quase sempre diferentes.

– Por que você veio a Gotemburgo? – perguntou uma sueca.

– Pra conhecer você – eu respondi. Continuar lendo

A pedra no sapato do mundo perfeito

Tags

,

Inércia da efetividade. É com essa expressão subjetiva e estranha que consegui definir como as coisas acontecem aqui no norte da Europa. Copenhague, a capital da Dinamarca, funciona movida por essa força. A cidade é tão “perfeita”, vista do ponto de quem anseia o desenvolvimento urbano e social, que você acaba querendo encontrar defeitos nela.

A mescla arquitetônica, a organização do fluxo de carros, bicicletas e pessoas e todas as outras características relacionadas à alta educação dos habitantes, oferta cultural fervorosa e serviços públicos de qualidade ajudam a compor esse rótulo.

Mas, de repente, no meio da cidade aparece fincada a bandeira de uma comunidade que se intitula “livre” das leis da Dinamarca e torna Copenhague ainda mais interessante e única. Continuar lendo

A fria, feliz e contente Dinamarca

Tags

,

A mesa está posta com o que há de mais tradicional no país. “Isso é o que costumamos comer na ceia de Natal”, diz Daniel, meu amigo dinamarquês.

Couve vermelha refogada, batatas cozidas no melaço de açúcar, molho marrom, linguiça e, claro, aquilo que não pode faltar na mesa dinamarquesa: carne de porco.

Os convidados começam a chegar. Todos me cumprimentam. Sou o estrangeiro. Mas ninguém se cumprimenta. Um aceno de mão basta como reverência aos presentes. Continuar lendo

A cidade que estuda e não dorme

Tags

,

Entrei na sessão de cinema com o filme em andamento. Era estreia de comédia americana. A sala estava abarrotada.

Mal sentei e ouvi um barulho esquisito. Um “ploc” bem alto, vindo de alguma poltrona bastante acima da minha. Segundos depois, outro “ploc”. Perguntei a minha amiga holandesa o que era aquele ruído.

– They are open beers – dissa ela, cochichando. Continuar lendo

O canal

Tags

O canal

Em maio, o Sol aparece às vezes, quando a chuva e as nuvens tiram folga.

Neste dia, ele veio.

Ela estava sentada na beira do canal, perto da ponte, que tinha flores, muitas flores.

De bicicleta, com seu cabelo louro esvoaçado, ele pedalava vagarosamente, absorvendo os raios escassos daquela primavera.

Passou por ela e virou a cabeça. Viu reluzir o amarelo na água ondulada do Amstel.

Apertou o freio com a mãe esquerda. Andou em direção a ela, hesitou por um instante, mas não resistiu.

– E se Amsterdã fosse sempre assim? Cheia de Sol… – disse ele, despertando a garota que fitava o casal de patos nadarem no meio do canal. Ela olhou, sorriu, pensou e disse:

– Amsterdã seria o paraíso.

Holanda: o futuro país ex-liberal?

Tags

,

O forte e gelado vento que varria folhas caídas na tarde deste domingo (29/05) no parque cartão-postal de Amsterdam, Vondelpark, dificultava a tarefa de acender o cigarro enrolado com tabaco e haxixe do enfermeiro holandês Hindriks (nome fictício). Apesar de não ser permitido fumar ali, após algumas tentativas frustradas, ele conseguiu acendê-lo e fumou. Continuar lendo

Partir: verbo intransitivo

Tags

É hoje que viajo. Mas, sinceramente, parece que estou viajando há 47 dias. Desde que deixei o meu apartamento na saudosa Rua Augusta, dormi em 18 diferentes camas (leia-se camas, sofás, colchões no chão, carro, assoalho).

Iniciei a minha vida nômade antes mesmo de cair na estrada. Foi muito bom. Revi amigos, tive maravilhosos dias no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo. Hoje, estou escrevendo da casa do meu grande amigo e conselheiro Michel, em Guarulhos. Continuar lendo

O leitor de Paraty

Tags

De chinelo, bermuda e peito aberto, ele entrou no mercadinho naquele meio-dia de sábado de ressaca para comprar aquilo que seria o seu almoço. Meia dúzia de salsichas e um pão sovado o manteriam até o primeiro trago de cachaça da terra que tomaria à noite. Na fila do caixa, como um primata, abriu o saco e pinçou uma salsicha. Com as mãos ágeis de quem já consertou muitos sapatos, dividiu a iguaria entre os amigos que o acompanhavam e pagou com moedas pequenas.
Continuar lendo

Sem medo

Tags

Se o desejo de voar é mais forte,
Desprenda-se e bata asas para longe.
Não deixe a promessa do tudo ganhar,
Pois ela vai arrancar-lhe as penas.

Ande para o Sul, Leste, Norte, Oeste, como os pássaros.
Sente-se na sombra e tire os sapatos,
Desamarre os cordões de ferro que o tempo enferrujou.
Deixe para amanhã o que era para hoje.

Se sentir fraqueza quando tentar partir,
Lembre-se de tudo que já andou e viveu.
Olhe no espelho e leia o que seus olhos escrevem.
Vire as costas, apague a luz e feche a porta.

* Poesia escrita em outubro de 2010