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De chinelo, bermuda e peito aberto, ele entrou no mercadinho naquele meio-dia de sábado de ressaca para comprar aquilo que seria o seu almoço. Meia dúzia de salsichas e um pão sovado o manteriam até o primeiro trago de cachaça da terra que tomaria à noite. Na fila do caixa, como um primata, abriu o saco e pinçou uma salsicha. Com as mãos ágeis de quem já consertou muitos sapatos, dividiu a iguaria entre os amigos que o acompanhavam e pagou com moedas pequenas.

Ezequiel era pra ter sido pastor evangélico, como o pai. Do ofício, aprendeu somente a falar firme, com segurança. Preferiu ser sapateiro, também como o pai. Entende bastante de saltos, fivelas, couro, camurça, cola, mas não usa sapatos. “Olhe meus pés. São bem cascudos”, gaba-se. De fato, a planta amarelada do pé de pele preta é grossa como o solado de uma bota e junto ao seu andar marcado dá a tônica da personalidade aparentemente rude do varão.

Anda muito. Pra cima, pra baixo, de uma praia a outra. Entre duas esquinas, para sempre para um aperto de mão ou uma conversa de 20 palavras. É ostensivamente popular. Diz sem titubear que a única coisa que o importuna na praticamente medieval Paraty é as formas irregulares dos paralelepípedos das ruas aportuguesadas do centro histórico. “É ruim caminhar sobre aquelas pedras. Quando chove, aquilo derrapa muito”, observa.

Apesar de ter nascido e morado a maior parte de sua vida em Angra dos Reis – município vizinho -, Ezequiel garante que é na terra dos pescadores, literatos e artistas plásticos que gosta de estar.  Não exatamente porque a cidade abriga essa horda de pensadores e intelectuais, mas pela sua atmosfera e energia que, segundo ele, são as melhores do mundo. Um mundo que se resume ao circuito Paraty – Angra – Rio de Janeiro. Nunca saiu do Estado.

Porque tinha que trabalhar para ajudar a família de cinco irmãs e três irmãos, parou a escola na quinta série. Mas, como um professor, fala com propriedade sobre a história da cidade, que foi uma das primeiras fundadas pelos colonizadores e que por muito tempo escoou açúcar, ouro e café para o Atlântico.

“Quiel” também sabe identificar os símbolos da maçonaria impregnados na arquitetura dos casarões coloniais, discorre sobre a localização das ilhas, baías e a duração das trilhas mata adentro que levam a paraísos pouco explorados da região. No currículo, dentre outros bicos, ele ainda estampa três anos como soldador em uma metalúrgica e experiência pesqueira em alto mar.

Gosta de tomar cerveja no bar frequentado pelos moradores da Faixa de Gaza, bairro que fica a poucos metros das belas galerias de arte do centro, mas que não pode receber aqueles que não pertencem à comunidade, que vive à beira do Rio das Cobras.

Durante o jogo de bilhar, um amigo conta que em breve mais um filme sobre a cidade será rodado. “Duvido que não seja sobre escravidão”, diz Ezequiel, que é negro puro, com traços centro-africanos, músculos sobressalentes, andar ereto e arqueado e cabelo pixaim com dois dedos de comprimento.

Dos ancestrais, muito provavelmente, veio o jeito para a percussão. À noite, nos restaurantes requintados e cheios de estrangeiros, Quiel acompanha com batuques o soar das cordas dos violões de samba, forró ou música jamaicana. Ali, angaria amores e mais amizades.

E foi na noite do mesmo sábado – aos 25 anos e meio de idade – que ele ganhou o primeiro livro de alguém. Comemorou e encantou-se do mesmo jeito que um menino ganha a primeira bicicleta. “Não sei o que vou encontrar dentro do livro. Mas com certeza será algo que eu ainda não sei”, disse o jovem e autêntico caiçara.

* Texto escrito em 27 de março de 2011

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