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O forte e gelado vento que varria folhas caídas na tarde deste domingo (29/05) no parque cartão-postal de Amsterdam, Vondelpark, dificultava a tarefa de acender o cigarro enrolado com tabaco e haxixe do enfermeiro holandês Hindriks (nome fictício). Apesar de não ser permitido fumar ali, após algumas tentativas frustradas, ele conseguiu acendê-lo e fumou.

Apresentei-me como jornalista que buscava impressões sobre a decisão, anunciada pelo governo holandês na sexta-feira (27/05), de proibir a venda de maconha e haxixe para turistas. “O governo é louco. Eles vão acabar com o turismo da cidade”, disse o homem 42 anos, que tem uma filha de 18 que não é usuária.

Os ministérios da Justiça e da Saúde da Holanda apresentaram uma carta ao Parlamento do país na qual propõem a aprovação (dada como certa pelo governo) de uma nova política de comercialização de drogas no território laranja.

Segundo o documento, as províncias de Limburg, Noord Brabant e Zeeland, localizadas ao sul, perto das fronteiras com a Bélgica e Alemanha, proibirão, até o final deste ano, que clientes não cadastrados junto aos “coffee shops” comprem as substâncias. Em Maastricht e Terneuzen, cidades também ao sul, a droga não é mais vendida para quem não é residente do país. Na capital Amsterdã, que recebe anualmente 4,6 milhões de turistas, a lei entrará em vigor a partir do ano que vem.

A ideia do novo governo holandês, que assumiu neste ano e tem apoio dos partidos de direita, é restringir a 1.500 pessoas o número de clientes que cada coffee shop poderá atender. Para ser cadastrado junto ao estabelecimento, o consumidor precisará ter moradia fixa no país. “Eles vão criar um mercado paralelo com esta medida”, acredita o enfermeiro.  O governo afirma na carta que esta medida visa reduzir a criminalidade que está associada ao uso da droga.

A proibição da venda de drogas para turistas é um dos sinais de que a Holanda está perdendo a fama de ser um dos países mais liberais do mundo. Hoje, o consumo de drogas consideradas leves tem a comercialização legalizada e o uso é restrito ao coffee shop e à própria residência do consumidor. No país, a prostituição é uma profissão regulamentada e contribui para as receitas tributárias.

Os “magic mushrooms” (cogumelos mágicos), que são alucinógenos, estão sendo pouco a pouco banidos das prateleiras dos smart shops (comércios que vendem produtos deste tipo, mas não comercializam maconha). Depois que uma adolescente britânica se suicidou, há dois anos, após ingerir os cogumelos, o governo impôs barreiras para este tipo de droga.

Coffee shops localizados perto de escolas ou parques para crianças também foram fechados com a alegação de que isso pode influenciar a juventude.

No sábado (28/05) à noite, estive reunido com 11 jovens holandeses de 22 a 25 anos em uma espécie de “house party”. Apenas um usa maconha ou haxixe. Segundo eles, a maioria da nova geração da Holanda não utiliza entorpercentes.

No Red Light District (distrito da luz vermelha), local em Amsterdã onde prostitutas se expõem atrás de vitrines, o governo está fechando o cerco com relação ao tráfico internacional de mulheres e, consequentemente, reduzindo a oferta de mulheres.

Nos últimos meses, pessoas foram presas e o número de vitrines disponíveis foi reduzido. “Hoje, aquela região é uma das mais seguras de Amsterdã. Ela vem atraindo a atenção de intelectuais e artistas que estão indo morar lá e acabam ocupando o espaço que seria das prostitutas”, diz um dos jovens que estava na festa e que é psicólogo.

O sentimento dos jovens que conversei é de que nos últimos anos a Holanda vem passando por uma profunda transformação no que diz respeito ao que pode ou não se fazer dentro do país.

Alguém aí consegue imaginar uma Amsterdã sem coffee shops ou prostitutas? Eu não consigo.

PS: A partir do próximo post, prometo fotos minhas. Comprei a câmera só hoje.

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