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A mesa está posta com o que há de mais tradicional no país. “Isso é o que costumamos comer na ceia de Natal”, diz Daniel, meu amigo dinamarquês.

Couve vermelha refogada, batatas cozidas no melaço de açúcar, molho marrom, linguiça e, claro, aquilo que não pode faltar na mesa dinamarquesa: carne de porco.

Os convidados começam a chegar. Todos me cumprimentam. Sou o estrangeiro. Mas ninguém se cumprimenta. Um aceno de mão basta como reverência aos presentes.

“Aqui, só cumprimentamos com beijo no rosto pessoas realmente muito próximas”, me alertou Daniel, logo quando me conheceu.

A frieza da chegada é diluída rapidamente pelas altas risadas que explodem na mesa.

Os dinamarqueses se consideram um povo feliz.  Aarhus, a segunda maior cidade da nação, escolheu o slogan de “A cidade que sorri” para promover o turismo.

“Não somos felizes. Somos contentes”, retruca Daniel.

Apesar de existir uma diferença substancial entre ser feliz e ser contente, que envolve discussões filosóficas, sociológicas e econômicas que não cabem aqui neste espaço, o que não pode ser negado é que eles são, sem contestação, prósperos.

O governo toma, no mínimo, 50% de todo o salário de um cidadão. Mas ninguém que eu conheci reclama disso. Por quê?

Porque, basicamente, todo mundo tem direito a educação remunerada (isso mesmo, você recebe pra estudar. E recebe muito), saúde de alta qualidade gratuita, aposentadoria acima da média do seu período de contribuição, seguro-desemprego que garante o seu último salário por 12 meses e por aí vai.

Tudo isso só é possível porque a Dinamarca tem uma riqueza chamada “recursos humanos”. Em outras palavras, eles têm muita gente inteligente produzindo o que as máquinas dos países em desenvolvimento não conseguem. E como eles conseguiram isso? Incentivando a educação.

Aqui, são 10 anos de educação primária, mais três anos do que chamamos colegial no Brasil. Com 19 anos, eles costumam terminar os estudos pré-universitários. E enganam-se aqueles que pensam que eles já engatam os estudos na faculdade. Aqui, é muito comum, os jovens tirarem um ou dois anos para fazerem alguma outra coisa antes de adentrarem efetivamente o mundo acadêmico.

Muitos optam por morar em outros países, iniciar projetos de trabalho voluntário, mas poucos deles seguem direto para mais quatro anos de estudos puxados na universidade.

Na mesa de jantar, além da comida, tem oito dinamarqueses terminando neste verão europeu (inverno no Brasil) os estudos de engenharia na faculdade da cidade. Eles têm de 25 a 30 anos e não estão nem um pouco preocupados com a vida. Ganham cerca de R$1.500 por mês do governo para estudar e estão todos planejando as férias pós-diploma.

Na hora de ir embora, outro aceno e eles voltam para suas casas sem muros e com jardins mais bem cuidados que a grama do melhor estádio de futebol brasileiro.

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