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Inércia da efetividade. É com essa expressão subjetiva e estranha que consegui definir como as coisas acontecem aqui no norte da Europa. Copenhague, a capital da Dinamarca, funciona movida por essa força. A cidade é tão “perfeita”, vista do ponto de quem anseia o desenvolvimento urbano e social, que você acaba querendo encontrar defeitos nela.

A mescla arquitetônica, a organização do fluxo de carros, bicicletas e pessoas e todas as outras características relacionadas à alta educação dos habitantes, oferta cultural fervorosa e serviços públicos de qualidade ajudam a compor esse rótulo.

Mas, de repente, no meio da cidade aparece fincada a bandeira de uma comunidade que se intitula “livre” das leis da Dinamarca e torna Copenhague ainda mais interessante e única.

Portal de entrada para a comunidade

“Cristiania” é uma comunidade sem Estado e sem governo, o que para muitos é um grande passo em direção à evolução para a sociedade anárquica. Cerca de 1000 pessoas vivem neste espaço que pertencia, até 1971, quando foi ocupada, à força militar dinamarquesa, que o usou como base nas guerras mundiais.

A sensação ao entrar na comunidade cercada por muros é de passar por um portal que nos leva a outro lugar completamente diferente. Não há quase nada em comum com a certinha Copenhague. As ruas são irregulares, não existem ciclovias, carros não podem circular, as pessoas se vestem despretensiosamente, os comércios são tocados por moradores e vendem produtos orgânicos. Isso sem contar que eles se intitulam ecologicamente sustentáveis. Para sublinhar ainda mais a ideia de liberdade civil, a venda de drogas leves é permitida. Maconha e haxixe podem ser comprados em bancas no meio da rua.

O que mais chama a atenção em Cristiania são, sem dúvida, as pessoas que circulam e moram por ali. A primeira impressão é de que são todos junkies e desocupados, que vivem em torno do comércio de drogas e álcool. De fato, a abertura para a venda do que é proibido em Copenhague atraiu muita gente com este objetivo. Mas, ainda assim, ali moram pessoas que não estão associadas a este meio e que cultuam como premissa de vida a liberdade individual e não submissão às leis do Estado.

Pauline Olson tem 53 anos. Suas unhas não têm esmalte e seus cabelos tingidos de preto tentam disfarçar o esbranquiçado da cor original. Ela chegou em Cristiania aos 20 anos, com seu pai, que saiu do interior da Dinamarca em busca da tranquilidade e bem-estar da comunidade.

Hoje, ela se dedica a produzir artesanalmente sucos naturais, que são vendidos nos poucos bares que existem em Cristiania. Ela não tem Ipod e não usa a Internet. Mora em um studio de pouco menos de 30 metros quadrados. Não casou. Diz que não gosta do amor e que as pessoas ainda não entenderam o seu propósito.

Com tristeza no olhar, ela conta que, em abril deste ano, a comunidade precisou fechar as portas para os turistas por três dias para realizarem uma série de reuniões e tomarem decisões coletivamente com relação ao futuro da comunidade. O governo dinamarquês desde o início do novo século tenta retomar a posse do local e impor as mesmas regras que são submetidas a quem está fora dos 340 mil metros quadrados, que engloba o perímetro de Cristiania.

Muitas discussões e protestos dos moradores aconteceram nos últimos anos. A queda de braço entre o Estado e a cidade-livre ainda não chegou ao fim.

Enquanto Cristiania existir, Copenhague será, para o governo, a cidade quase perfeita.

Enquanto Cristiania existir, Copenhague será o outro mundo.

"Você está agora entrando na União Europeia", avisa a placa na saída da cidade

PS: É proibido tirar fotos dentro de Cristiania, mas existem algumas disponíveis no Google Imagens.

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