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"Como muitos pássaros, mas diferente de muitas espécies, os humanos são uma espécie migratória"

É inescapável ser questionado sobre o que estou fazendo em cada cidade que chego. As pessoas querem saber o que me levou a visitar o local em que elas nasceram. As perguntas costumam ser as mesmas. As minhas respostas são quase sempre diferentes.

– Por que você veio a Gotemburgo? – perguntou uma sueca.

– Pra conhecer você – eu respondi.

Eu não estou indo atrás de nenhuma atração turística. O que eu quero é conhecer novas perspectivas. As aulas de filosofia do colégio começam a fazer sentido agora. Segundo Hegel, para obtermos uma síntese precisamos de uma tese e uma antítese. Eu sou a tese e essas pessoas que cruzam aos montes meu caminho são as antíteses. As sínteses estão sendo processadas aos poucos pela minha mente. A primeira conclusão a que cheguei nesta viagem é que as pessoas têm boa índole. O que as atrapalha é uma coisa que explico abaixo.

Em Gotemburgo, existe um museu de cultura mundial. É um mix de arte contemporânea com exposições temporárias. Bem bacana. Lá, conheci Sanna, a guia de uma das exposições, e Juan Carlos, um colombiano que mora há quase três anos na Suécia e que estava de passagem pela cidade.

World Culture Museum, em Gotemburgo

Por duas horas nós três discutimos uma dezena de problemas que o mundo enfrenta atualmente, da situação dos refugiados na Escandinávia ao regime autoritário de Muammar Kadaffi. Não vou aqui listar as opiniões de cada um.

Sanna é artista. Pinta, canta e quer dar aulas. Juan Carlos é veterinário especialista em cavalos que saltam obstáculos em competições. Eu sou alguma coisa entre jornalista e sonhador. Somos muito diferentes. A síntese obtida da conversa passa pelo sistema que vivemos. O capitalismo é a razão da maioria das atrocidades cometidas no mundo. A sensação é que precisamos resetar o ser humano. Começar de novo. Rousseau dizia que o ser humano é corrompível por natureza. Mas não houvesse o sistema monetário, aposto que a história seria diferente.

Vista aérea de Gotemburgo

Dizem que eu estou viajando. Mas esta é uma viagem tão diferente do que eu costumava chamar de viagem que, sinceramente, acho que não posso dar esse nome a ela. No fundo, estou morando por pouco tempo em muitos lugares. Tentando entender de forma geral como as pessoas vivem, o que elas fazem, pensam, como elas sofrem, de que forma elas sorriem.

É uma vida nômade, sem amarras, na qual os problemas são mínimos, se é que existem.

Amanhã é segunda-feira.

No Brasil, eu sempre sabia o que iria acontecer às segundas-feiras (com exceção de algumas que foram bem vividas na rua Augusta). Nesta viagem, as improbabilidades improváveis se multiplicam por segundo e eu fico com a gostosa sensação de que tudo pode acontecer amanhã.

Quem sabe, talvez eu encontre o botão de reset do homem.

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