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Sempre falei, em um sentido amplo, que sorte é para os fracos. Apesar disso, eu realmente me senti sortudo quando a francesa disse que me daria carona de Gotemburgo até Estocolmo no exato dia em que eu planejara chegar à capital sueca. Andei 450 quilômetros sem pagar um centavo em um dos países mais caros do mundo. Mas a sorte pode perecer rapidamente.

O plano era chegar à cidade e seguir para a última estação de uma das linhas de metrô de Estocolmo, onde mora meu amigo sueco. Cheguei à estação às 19h. Combinei de esperá-lo, pois ele tinha um jantar que terminaria por volta das 20h. Por diversos motivos que não vêm ao caso, ele deu as caras às 3h da manhã. E graças a esse “sublime” atraso eu pude assistir um fenômeno social e antropológico bastante difícil de ser explicado.

Hjulsta é a última estação de metrô da linha que pode ser considerada a mais periférica de Estocolmo. Chutando por baixo, 90% das pessoas que moram no bairro de mesmo nome são imigrantes, oriundos da África e Ásia, principalmente. Os prédios são simples, os apartamentos pequenos e as poucas lojas que existem no local vendem produtos que nenhum sueco está acostumado a comprar.

Entrada da estação

Fiquei sentado na estação de metrô durante várias horas, como já disse. Em Estocolmo, diferentemente de Copenhague, existem catracas no metrô. Ou seja, para passar o bloqueio, você precisa ter um ticket ou cartão válido, como no Brasil. A diferença é que em Estocolmo não há funcionários do metrô postados perto das catracas com o objetivo de evitar que alguém pule ou faça qualquer tipo de manobra para burlar o bloqueio. Isso não se faz necessário porque simplesmente o sueco não tenta fazer esse tipo de coisa. E por sete horas eu pude comprovar que isso é verdade.

Nos cinco primeiros minutos, tomei um susto quando vi cinco jovens imigrantes entrarem correndo na estação e pularem a catraca. Imediatamente olhei para o funcionário responsável pela venda de bilhetes e ele, também imigrante, falava ao telefone celular de forma bastante tranquila.

10 minutos depois, ao invés de pular, um rapaz rodou a catraca ao contrário e passou pelo bloqueio praticamente assoviando. E depois mais outro e outro e mais outro e mais um que pulou a catraca e foi assim a noite toda. Às sextas e sábados, o metrô em Estocolmo funciona durante 24 horas.

Metrô de Estocolmo tem luzes coloridas e muita arte

Como estava tentando falar com meu amigo para saber o motivo de tanta demora, tive que recorrer ao celular do funcionário do metrô. Muito solícito, ele me deixou fazer algumas ligações e não aceitou o dinheiro que ofereci como recompensa pelo favor.

Perguntei a ele por que tanta gente não pagava o metrô na Suécia. Ele me respondeu que, na verdade, aquilo só acontecia naquela estação e que ele não era pago para fiscalizar esse tipo de coisa. Então ele me disse que se algum deles fosse pego por algum fiscal dentro do vagão, a multa pela infração seria de algo em torno de R$ 200.

— Há muita fiscalização? – perguntei ingenuamente.

— Para dizer a verdade, não. O metrô é muito grande e tem muita gente. É difícil fiscalizar – respondeu.

Decorridas algumas horas, pude notar que todos os suecos (é fácil reconhecer um sueco: eles são muito brancos, geralmente loiros e se vestem muito bem) pagaram suas passagens. Não houve exceção, nenhum fez o truque ou pulou a catraca. Também notei que quase todas as mulheres pagaram suas passagens. Algumas jovens burlaram o bloqueio. Enquanto isso, a esmagadora maioria de homens, com feições de imigrantes, pulou ou fez o truque de rodar a catraca para trás.

Pequeno sueco se divertindo no lago

De imediato, realmente não consegui entender essa estatística. “Será que eles não têm dinheiro?”, pensei. Mas eles moram na Suécia e, provavelmente, devem trabalhar aqui e ganhar salários dignos, como todo mundo no país.

“Ou será que eles fazem isso porque é fácil?”, cogitei. “Mas se é fácil, por que os suecos não o fazem?”. “Será que é porque os suecos têm dinheiro?”. “Mas por que a maioria das mulheres não o faz?”. Enfim, muitas dúvidas surgiram na minha cabeça.

Eu arrisco a fazer um paralelo, que talvez faça algum sentido, que está intimamente ligado ao fato da Suécia ser um país extremamente desenvolvido.

Estocolmo durante a noite

Podemos considerar uma forma de corrupção o ato de alguém deixar de pagar algo ao governo. No ano passado, eu não paguei impostos, logo, eu fui corrupto. O cidadão sueco ao não fazer isso está colaborando para que o Estado tenha condições de oferecer uma série de serviços e direitos a toda população.

Genericamente falando, o cidadão sueco não corrompe o sistema. E o político que o representa também não o faz. Ou alguém conhece algum caso de mensalão do governo sueco?

Por isso, toda a riqueza do país obtida a partir de impostos, que são altíssimos, contribui para o sucesso do sistema de saúde e educação, que são gratuitos e de qualidade, e para os vários programas de distribuição de renda que o cidadão pode ter acesso, como ajuda de custos durante os estudos, seguro-desemprego por 12 meses que mantém o último salário do trabalhador, aposentadoria integral e por aí vai.

E aí olhamos para o Brasil, para a África, Ásia, enfim, qualquer país subdesenvolvido e perguntamos por que eles não têm o mesmo padrão de desenvolvimento que as nações escandinavas ou europeias. Será que podemos culpar essas micro-corrupções como um dos fatores? Afinal, esses países têm muitas riquezas e capital humano. Por que raios eles não se desenvolvem?

Eu sinceramente não sei a resposta, mas que existe algo de intrigante na minha experiência com o metrô de Estocolmo, isso existe.

PS: Eu também não paguei o metrô na maioria das vezes. E aqui vai a minha justificativa e que talvez seja a explicação para o calote dos imigrantes no metrô. Um único passe de metrô em Estocolmo custa R$ 12.

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