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Ele estava deitado na cama ao lado da minha na cabine do navio. Acordou de um sono leve, levou as mãos ao cabelo ralo e pixaim, sorriu e perguntou. – De onde você é? Eu estava sentado na fina e estreita cama que nos alugam por cinco dezenas de euros para a travessia de 17 horas entre a Suécia e a Finlândia. – Brasil – respondi. – Ah, que maravilha. Eu gosto muito de futebol. Preciso ir ao Brasil. – E você? De onde é? Os momentos que antecedem essa pergunta são sempre de grande expectativa. Gosto de tentar adivinhar a nacionalidade da pessoa que acabei de conhecer. Deste rapaz, contudo, eu realmente não tinha a menor pista. – Etiópia, no nordeste da África – disse ele, novamente sorrindo. A Etiópia é um dos países mais pobres do mundo, com um dos menores índices de desenvolvimento humano. – Eu estava estudando na Suécia. Terminei o primeiro ano do curso de direitos humanos, mas preciso encontrar um emprego durante as férias de verão – continuou, explicando-se. – Que tipo de emprego você vai procurar Finlândia? – perguntei. – Qualquer coisa. Qualquer emprego. Fasil tem 26 anos. Na Etiópia, ele estudou direito por cinco anos, mas não consegue emprego na área. Nasceu e cresceu na capital do país, Adis Abeba. Ele tem alto nível educacional perto dos 65 % de analfabetos do país. – Não vejo a hora de voltar. Aquele lugar é tão bom. As pessoas são muito boas. Esse é o nosso maior tesouro – disse ele. – E por que você não volta? – Preciso juntar algum dinheiro antes. Vou fazer isso e depois voltar. – Você trabalhava na Suécia para se sustentar? – Na verdade, não. Minha mãe me manda algum dinheiro e eu me viro. – Ela mora na Etiópia? – Não. Ela mora em Israel – disse ele, com certa tristeza no olhar. Fasil não vê sua mãe desde que ela imigrou ilegalmente para trabalhar como empregada doméstica em Israel. Isso faz 16 anos. – Nos falamos ao telefone cinco vezes ao dia. Ela é muito preocupada comigo. A mãe do jovem rapaz precisou imigrar para conseguir trabalho. Por estar ilegal no país, ela não pode visitar o filho na África. Fasil também não consegue visitá-la em Israel porque é bastante complicado conseguir o visto e o dinheiro para as passagens. Em Israel, ela consegue fazer mais ou menos 1000 dólares por mês. Com esse dinheiro, ela ajuda Fasil e também envia dinheiro para os avós dele, que o criaram. – E como é isso? Você não sente saudade dela? – perguntei. – Claro que sim, mas o que posso fazer? Depois que eu juntar algum dinheiro eu vou tentar o visto para ir visitá-la. Conversamos muitas horas sobre as semelhanças que brasileiros e africanos têm em comum. Ele discorreu com uma visão bastante crítica sobre o ditador que governa seu país há 27 anos. Indaguei-o sobre como é a vida na Etiópia. – Vocês sempre ouvem dizer que a Etiópia é um dos países mais pobres de todo mundo e que a miséria é de um nível insustentável. Claro que as pessoas são pobres, mas elas sempre encontram uma forma de sobreviver. É uma luta intensa, mas que todos vencem dia após dia. Fasil não vislumbra uma vida de luxos. O jovem rapaz quer apenas comida na mesa e um lugar para viver perto de sua mãe. Ele garante que isso lhe traria a felicidade plena.

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