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Lá se vão 20 anos desde que o comunismo soviético colapsou. A era vermelha atualmente existe apenas nos museus, livros e na memória daqueles que viveram o regime. Lênin transformou-se em estátuas, Stálin em demônio e Gorbachev em Ali Babá.

Entre a maioria dos jovens russos, o assunto é dado como morto. A nova geração estuda os acontecimentos – mais que históricos – como se fossem fórmulas matemáticas, que são esquecidas depois do exame.

Entre os mais antigos, aqueles que sofrem com a exclusão e competição do capitalismo querem o regime de volta. Os que se deram bem na economia de mercado não podem ouvir falar da foice e do martelo. O atual governo, que do comunismo herdou a gestão nada democrática, tenta a todo custo apagar da mente da população este período.

O fato é que, hoje, no maior país do mundo e ex-líder do bloco das repúblicas socialistas quem impera é, sem dúvida, o capital. A Rússia, que antes tinha apenas um dono – o Estado – vivencia a chegada de muitas empresas estrangeiras e a proliferação de pequenos e médios negócios nos setores produtivo e de serviços.

Um dos maiores símbolos do capitalismo norte-americano escrito no alfabeto cirílico

Isso não quer dizer que ninguém tenha saudades da época em que nenhuma pessoa ficava desempregada porque o governo garantia emprego a todos, em que a educação tinha um nível de excelência invejável mundo afora, em que o sistema de saúde era gratuito e de qualidade e em que todos tinham um teto para dormir.

E isso também não quer dizer que todo mundo queira voltar para o sistema que cerceava a sua liberdade de ir, vir, ter, comprar e até de mesmo respirar, que produzia filas e mais filas para a obtenção de itens básicos de sobrevivência, que não permitia o livre-pensar e que, no final das contas, não passou de uma alternativa frustrada ao perverso e também frustrante sistema capitalista. Para se ter ideia, o desemprego na Rússia hoje é da ordem de 7%, de acordo com dados do governo, que podem facilmente estar maquiados.

Talvez, a única coisa que restou desde que a revolução de outubro de 1917 foi levada a cabo são os apartamentos que em russo levam o nome de Kommunalka. No regime soviético, o Estado era dono de amplos apartamentos, com vários quartos grandes. Cada família recebia um quarto para viver e as áreas comuns, como a cozinha e o banheiro, eram divididas. Muitas habitações tinham várias famílias vivendo juntas.

Porta de entrada de uma Kommunalka

“Vivi em uma Kommunalka em que éramos seis famílias, no mínimo 15 pessoas no total. Tínhamos apenas um banheiro. Todo dia de manhã brigávamos entre nós. Para cozinhar também não era fácil. Havia regras, mas nem sempre era fácil respeitá-las”, lembra uma russa de 51 anos que conversei sobre o assunto.

Em São Petersburgo, que um dia já foi Petrogrado e que em outro já foi Leningrado e que depois voltou a ser São Petesburgo, cerca de 600 mil pessoas (10% da população) ainda vivem nessas moradias, que são bastante comuns no país.

Por razões políticas, a cidade mudou de nome duas vezes e com o fim da União Soviética retomou o primeiro nome que Peter, o Grande, fundador da cidade, lhe concedera

Por cerca de 45 mil reais é possível comprar um quarto (isso mesmo, somente o quarto) em um apartamento perto ou exatamente no centro da cidade, que é a segunda maior da Rússia e que foi palco da revolução socialista que mudou profundamente a história do mundo moderno.

Cidade com forte influência europeia é banhada pelo rio Neva

Legalmente falando, no contrato do imóvel o comprador vira dono de um percentual do apartamento, como se fossem ações de uma empresa. No boca a boca é acertado qual pedaço da cozinha e de outras possíveis áreas comuns lhe serão destinados.

Outro russo que conheci, de 40 anos, tem dois quartos em um apartamento de três quartos que foi construído em 1904. Visitei o local que ele divide com um senhor de 74 anos. “Nos damos bem. Nunca tivemos problemas. Ele tem a própria geladeira, fogão, pia, enfim, tudo, separadamente. Eu até cedi um pouco do meu espaço na cozinha para que ele usasse”, conta o homem, que aluga para estudantes estrangeiros o outro quarto que lhe pertence.

Comunismo até certo ponto. Na hora de lavar a louça, prevelace o individualismo

As Kommunalkas estão se extinguindo. O sistema não é bem visto pelo governo e as pessoas querem gozar de maior privacidade. Além disso, as condições dos imóveis são bastante precárias porque, além de serem construções antigas, reformas quase nunca são feitas, já que no fundo ninguém quer investir em uma coisa que não lhe pertence completamente.

Expansão imobiliária na cidade segue a direção vertical

O dia em que o último morador deixar o seu quarto na Rússia, Lênin descansará eternamente em paz.

Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido por Lênin: o líder da revolução socialista de 1917

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