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Abri os olhos com dificuldade. Eles estavam pesados, fechavam por si só. O sono de poucas horas fora muito interrompido pelo sacolejar do vagão número 15, o último do trem. A poltrona de ferro que não reclinava contribuiu para o desgosto. O banheiro, fechado porque estava quebrado ou quebrado porque estava fechado, também não ajudou em nada. 700 quilômetros por 30 reais, ou seja, 0,04 centavos por quilômetro. Na proporção da vida, a regra geral diz que quanto menor o coeficiente, mais penoso será o processo.

"Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem", Raul Seixas

Quis adivinhar as horas com base na claridade do céu, mas errei por três. No verão, o dia não tem fim. Eram cinco da manhã. Seis, se eu considerasse o fuso horário. “Tenho ainda mais quatro horas”, conclui, tentando salivar minha boca grudenta, salgada e adormecida.

Cheguei à estação com cinco horas de antecedência. Meu trem partiria às 2h da manhã. O último, o mais barato. Entender o painel que mostrava o número das plataformas de partida dos vagões exigia profundo conhecimento em russo. Não havia informação em outra língua e eu não tinha esperança em encontrar alguém que falasse inglês. Nessas situações, ao invés de buscar ajuda, o melhor a fazer é interpretar o João Bobo. Ficar olhando de um lado para o outro, dando a entender que está completamente perdido é uma estratégia. De vez em quando, alguém aparece para ajudar. Não foi o caso.

O peso da mochila, que apesar de impressionar a todos pelo pequeno porte, suava minhas costas e incomodava os músculos do pescoço. “Vou sentar em algum lugar, abrir meu livro e descansar um pouco”, decidi.

Página 534. O mesmo livro desde que comecei a viagem. Ele é grande, estou digerindo-o bem aos poucos. Não quero terminá-lo. A Dona Simone me cativou profundamente. Os Mandarins franceses ainda ecoam no presente. Sentei no chão de concreto. Não existem bancos na estação. Desamarrei o tênis e senti meus dedos novamente. Li por 20 minutos.

“É bom este livro?”, perguntou o jovem rapaz que estava em pé ao meu lado, com uma pequena mochila preta.

Eu não o havia notado. Pelo sotaque, imaginei que fosse americano.

“Muito bom. É de uma escritora francesa”, respondi.

“Vi que você estava lendo em inglês e pensei comigo: poucas pessoas falam inglês na Rússia”.

“Sim, é verdade”, concordei.

“Para onde vai?”, perguntou ele.

“Moscou. E você?”.

“Também”.

Tomi é finlandês. Se eu tivesse prestado mais atenção, teria notado que o loiro de seu cabelo e o azul de seus olhos são mais comuns na Escandinávia do que nos Estados Unidos. Não tomamos o mesmo trem. Ele partiu três horas antes.

Conversávamos banalidades e resolvemos buscar uma cerveja.  No caminho, um pequeno homem, calvo, de corpo rígido, troncudo, nos interrompeu. Desta vez, o sotaque americano era inconfundível.

“Rapazes”, começou ele, “vocês sabem como eu faço para comprar uma passagem para Novgorodo?”.

Tomi fala um pouco de russo e se propôs a ajudá-lo. Fomos todos até o guichê. Um russo, que não falava quase nada de inglês, quis interagir e puxou conversa pedindo um cigarro. No final das contas, foi ele quem ajudou Mark, um americano de Boston, a comprar o bilhete.

Tomi partiu sem se despedir, como é via de regra para quem nasce no norte da Europa. Mark resolveu ficar. Viajava sozinho e estava entediado porque não havia conhecido ninguém em seu hotel.

“Há três dias que ando como um fantasma pela cidade”, reclamou.

Contei-lhe sobre o Couch Surfing, sobre a possibilidade de ficar na casa de viajantes locais. Vi brilho em seus olhos. Mark foi mochileiro quando jovem. Passou 16 meses seguidos, quando tinha 24 anos, no leste europeu. Hoje acredita ser velho para encarar um albergue. Encorajei-o a retomar o espírito e continuar sua viagem de outra forma, como ele fazia antigamente. Ele disse que eu estava certo, que este era o estilo dele e que ele não podia simplesmente abandoná-lo em razão de sua idade.

Aos 53 anos, Mark tem uma empresa de pintura e pequenas construções nos Estados Unidos. “A maioria dos meus empregados são de Minas Gerais, no Brasil. Minha ex-mulher é de Salvador, mas ela não fala inglês. Tive que aprender português”, contou.

Conversamos por horas. Ele me contou sobre seu filho de 21 anos, meio americano, meio brasileiro, que está servindo ao exército americano no Afeganistão. Fiquei curioso sobre o assunto. Ele prometeu que entregará meu e-mail para o jovem.

Nos despedimos calorosamente. Um abraço, tapa nas costas. O velho e bom “você pode ficar lá em casa, quando precisar”. Botei a mochila nas costas e entrei no vagão.

Antes de partir, perguntei se tinha algum conselho para me dar. Ele não hesitou.

“Kid”, disse ele, suspirando, “quando sentir que gostou de algum lugar, não vá embora. Fique até cansar. Nunca conseguiremos voltar e encontrar as mesmas pessoas”.

No vagão do trem, enquanto 63 russos dormiam, eu contabilizava o primeiro grande arrependimento da viagem: deixar São Petersburgo.

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