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Caminhões verde-escuros cruzam as largas avenidas de Moscou com dezenas de homens armados sentados na caçamba. Cantam pneus, aceleram e rasgam o sinal vermelho. A impressão que se tem é de que a guerra começou. Uma inexistente guerra para a qual mais de um milhão de soldados do exército russo são treinados todos os dias.

No país, existe um museu de artilharia, com tanques de guerra, armas etc

Na porta do metrô, noutro dia, vi algumas centenas de jovens enfileirados, em posição de sentido, imersos na falsa concentração que lhes obrigam atingir.  Mochila pequena nas costas, saco de dormir e cantil. Uniformes verde-oliva e coturnos pretos. Cara muito fechada, sem marcas do tempo por falta de movimento.

Todo jovem é obrigado a servir. Não existe, como no Brasil, o tal “excesso de contingência” do qual eu e praticamente todos os meus amigos tiramos vantagem. O governo russo quer que os homens saibam manejar um fuzil. E eles se orgulham de estar sempre preparados para a guerra.

Sentimento militar nacional

– Você não sabe usar uma arma? – perguntou um russo, depois que lhe contei que a maioria dos brasileiros não passa pelas forças armadas.

– Não tenho a menor ideia. E espero sinceramente não aprender.

– Mas e se vocês entrarem em uma guerra?

– A gente canta, samba e pede outra cerveja – brinquei.

O passado remoto e recente da Rússia são marcados por conflitos, revoluções, insurreições, golpes etc. O reflexo desta herança no povo é visível. Dizer que os russos são frios é generalizar e escolher o adjetivo mais fácil. Eles não são frios. Gostam realmente de interagir, de ajudar, de falar. Mas a carranca e o modo agressivo, cheio de furor, com que eles conversam entre si, assustam. Um simples bate-papo entre eles parece discussão.

Generais russos estão por toda parte

No supermercado, a moça do caixa urrava com um cliente porque ele não tinha dinheiro trocado. No restaurante, enquanto eu tentava decifrar o cardápio, o garçom bradou de forma rude algumas palavras em russo e eu, com cara de tacho, perguntei à minha amiga o que ele estava dizendo.

– Disse para você escolher com calma. Ele sugeriu o prato do dia.

– Mas por que ele gritou comigo?

– Ele não gritou com você – disse ela, encerrando o assunto.

Leva certo tempo para se adaptar a essa sensação de estar sempre sendo pisoteado e vigiado. O jeito com que a polícia olha para as pessoas não é agradável. Eles são muitos, estão por toda parte e têm fama internacional de corruptos. A presença maçante da polícia na rua ajuda a controlar o regime pseudo-democrático que a Rússia vive desde o colapso do comunismo.

A temida polícia russa

Vladimir Putin foi presidente da Rússia por oito anos. Quando não podia se reeleger novamente, colocou “com as mãos” seu pupilo Dmitri Medvedev no poder. O agraciado resolveu escolher Putin como primeiro-ministro, cargo que ele exerce há cerca de três anos. Em suma, uma manobra política para continuar comandando o país.

No ano que vem, mais uma eleição presidencial vem por aí. O resultado não deverá trazer surpresas. Putin poderá novamente se candidatar como presidente. E absolutamente todos os russos com os quais conversei a respeito disseram que o sentimento nacional é de que as eleições já estão decididas. “Elas são forjadas”, disseram algumas pessoas. Medved venceu a última com 85% dos votos. Há alguns meses, Putin, em entrevista a jornalistas, disse que a Rússia é o único país democrático do mundo.

O Kremlim durante a noite, a humilde residência do presidente

“Antes, durante o regime soviético, tínhamos certeza de que não vivíamos sob uma democracia. Agora, o governo chama este regime de democrático, mas a verdade é que nós não sabemos ao certo como podemos chamá-lo. Existe absoluta falta de liberdade. Pensando por esse lado, eu preferiria que fosse uma ditadura. Ao menos, saberíamos como denominá-la”, desabafou um jornalista russo, que conversei durante horas sobre o assunto.

Outro dia li um artigo de outro jornalista russo que trabalhou como correspondente no Brasil por 14 anos. Fundamentalmente, o que ele sustentou no texto é que a Rússia tem muito o que aprender com o Brasil quando o assunto é democracia. O texto foi publicado em português em um blog. Uma chuva de comentários de brasileiros criticou veementemente a opinião do correspondente. A linha geral apontada pelos internautas é de que o Brasil não vive uma democracia plena.

Gostaria que cada um dos que comentaram o texto passassem um mês na Rússia e sentissem o que é estar sob um regime que se clama democrático, mas que não passa de uma farsa autocrática. Não sei classificar a democracia brasileira, mas que ela é melhor que a russa, sem dúvida.

Para se ter ideia, na Rússia, toda e qualquer manifestação de rua precisa ter a aprovação do governo. Caso contrário, a polícia e o exército têm o direito e dever de reprimi-la. O único partido político de oposição oficialmente registrado e permitido pelo governo é o Partido Comunista, que perde força dia após dia. Uma série de outros partidos vive na clandestinidade. Os principais canais de televisão são controlados pelo governo. Artistas de rua são proibidos pela polícia de se apresentarem e por aí vai.

Uma das profissões mais perigosas na Rússia é a de jornalista. Muitos já morreram assassinados e nunca nenhum culpado foi encontrado. Escrever algo que arruíne a imagem do tal único governo democrático do mundo pode ser muito perigoso.

Não vale a pena ser jornalista na Rússia

Mas mudando de alho para bugalho, foi inevitável chegar a Moscou e não compará-la com São Paulo. Elas são muito parecidas. Por um momento, me senti em casa novamente. Cidades verticais, com gente apressada, vendedores ambulantes, trânsito, fuligem, sujeira nas ruas, bêbados dormindo na calçada, bilionários, mendigos. Perceber o quão similar são as sociedades brasileira e russa me fez pensar que Marx estava muito certo quando escreveu que a infraestrutura determina a superestrutura. Ou seja, que a economia delineia a forma como a sociedade se compõe. Brasil e Rússia estão no mesmo patamar econômico e isso tem forte reflexo na forma como as cidades se organizam e as pessoas se relacionam.

Na saída de várias estações de metrô, velhinhas vendem flores

Viajar pela Rússia foi um desafio que me agradou muito por um lado e nem tanto por outro. O problema de comunicação me fez sentir como uma criança que ainda não aprendeu a falar. No último dia, consegui comer em um restaurante russo sem ajuda de ninguém, me senti um vitorioso. Mas enganam-se vocês que eu balbuciei algo em russo. Foi tudo na base da mímica.

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