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Acordei desejando um copo cheio e açucarado de café. Eles têm sido poucos durante a viagem: quando não são caros, eu não consigo pedi-los na língua local; quando são de graça, nunca vêm com açúcar; quando eu consigo comprar, são desses que diluem na água. O café me faz falta. E olha que sou iniciante no assunto.

O colchão fino atordoou minha coluna durante toda noite. Pela fresta da janela, tentei adivinhar se havia Sol.

– Estou em Barcelona -, lembrei a mim mesmo.

De repente, me vi falando sozinho – como é de costume – e perguntando dezenas de vezes o que está no título. A sensação plena de liberdade bagunçou minha cabeça por alguns dias. Ao mesmo tempo em que eu tenho todas as possibilidades do mundo, eu não as tenho se não fizer uma escolha. E escolher a melhor maça do imenso pomar, não é fácil.

Viajar é escolher a todo instante. Primeiro, as estradas, depois as avenidas, ruas e portas. É preciso também optar pelo norte, pelo sul, pelo dia, pela noite. Escolho também a cama que parece mais confortável quando entro em um quarto de albergue com 80 camas.

Quando não consigo escolher, me sinto cego, sem força, me dói o estômago. E às vezes não consigo escolher simplesmente porque não quero escolher entre aquelas alternativas. E então, passo a procurar por mais alternativas que se somam às outras e tudo isso vira uma confusão monumental na minha cabeça.

Escolhi deixar Barcelona. Há quatro anos que falo dessa cidade como se fosse a melhor do planeta. Talvez, até seja. Já escrevi em outro lugar que Barça é colorida, viva, pulsante, jovem, artística. Mas não é o que eu preciso no momento. Eu preciso de um choque de realidade. A Europa está cada vez mais igual para mim. Como disse um viajante que conheci, a Europa é “igreja, museu, ponte e chafariz”. É um pouco exagerado e generalizado, mas o comentário faz muito sentido.

Meu plano inicial da viagem está cada vez mais descaracterizado. Mais umas três semanas para o leste europeu e depois vou iniciar o que estou chamando de projeto “Kamikaze”. A ideia é viajar por terra da Turquia até a Índia, passando pelo norte do Iraque, cruzando todo o Irã e entrando pelo sul do Paquistão para subir e sair no norte da Índia. O nome do projeto está um pouco exagerado, porque da lista só o Paquistão deverá ser um pouco complicado. O resto vai ser tranquilo, segundo relatos de viajantes que conheci.

Acho que existe um ditado que diz que “quem muito escolhe, com nada fica”. Talvez seja possível adaptá-lo para “quem muito viaja, com escolhas fica”.

 

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