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Sala da câmera de gás de Auschwitz I

Meus pelos do braço eriçaram-se quando li, na entrada daquele bloco retangular de concreto, o aviso aos visitantes. Em polonês, hebraico e inglês, a placa pedia silêncio em respeito às centenas de milhares de pessoas mortas pelo regime nazista naqueles 100 metros quadrados. Fiquei congelado por alguns segundos, relendo a clemência. Meu estômago remexeu, senti um estranho mal estar, enxuguei o suor do rosto, esfreguei os olhos com força, fazendo careta, e disse a mim mesmo que seria apenas por alguns minutos.

Ao entrar, a sensação que se tem é que existem almas dependuradas no ar. Uma sala retangular, com paredes cor de sofrimento, que parecem chorar o concreto em camadas esbranquiçadas. Andar ali dentro é como tentar se locomover na areia movediça. O corpo não consegue naturalmente ir para frente e para trás. A locomoção é lenta, forçosa. Uma energia indescritível pressiona teus ossos para dentro, tentando reduzi-los.

Flores perdem seu cheiro ali dentro. Não há rosa que resista à densidade do ar outrora impregnado pelo mortífero gás asfixiante. Tentei respirar fundo e o que senti foi um fluído carregado de dor. Respirar dentro da câmara de gás de Auschiwitz I é mais difícil que puxar o ar debaixo d’água. Não que falte ar, mas o pulmão tenta recusar aquele oxigênio encrustado de desespero.

Assustei-me com a chegada de um turista branco, vestido de preto, como se eu fosse um prisioneiro e estivesse à espera de um oficial da SS para me levar à sala onde eu ficaria nu e ouviria que, em instantes, eu tomaria um banho de desinfecção, que nada mais seria que um jorro de gás sobre a minha cabeça e a de muitos, que nos apagaria em questão de segundos.

Incineradores de corpos humanos

Deixei a segunda sala e adentrei, mais lentamente ainda, o espaço onde os corpos eram queimados para virarem pó. Os incineradores ainda estão ali. Enferrujados, eles são vermelhos, como sangue. Montes de inocentes foram transformados em cinzas, para evitar que milhares de valas tivessem que ser abertas no chão.

Do lado de fora, tanques gigantescos acomodaram a poeira humana nos primeiros anos de 1940, quando os alemães ainda usavam aquela pequena câmara de gás, que depois foi substituída por uma de escala industrial, erguida no acampamento de Auschwitz II. Quando perceberam que a guerra estava perdida para os países da Aliança, os nazistas começaram a destruir a segunda câmara de gás, que hoje se resume a escombros preservados no segundo complexo do campo.

Auschwitz II

O caminho entre os dois campos tem menos de três quilômetros. O governo disponibiliza ônibus gratuitos para os turistas se transportarem de uma unidade a outra. Preferi ir caminhando e pensando no que havia visto. O homem gaba-se de ser diferente dos animais por saber pensar. E é exatamente este o problema. Se não pensássemos, talvez não construíssemos uma fábrica de mortes, como Auschiwitz.

Em Auschiwitz II (também chamada de Birkenau), morreu a maioria dos judeus, soviéticos, presos políticos, ciganos homossexuais e perseguidos do Terceiro Reich. O trilho do trem que trazia as vítimas apinhadas nos vagões continua intacto. Não mais que 200 metros separam a entrada do segundo complexo de aniquilamento daquela que foi a maior câmara de gás do mundo. Minutos separavam a descida do trem do adeus à vida.

As janelas do alojamento número três estavam repletas de teias de aranha. A poeira e o sol resplandecendo naquele pedaço de vidro dificultavam enxergar alguma coisa ali dentro. Joguei um pouco de água, aproximei meu rosto junto à janela e com as mãos tapei os raios do sol. Vi escarçamente um galpão abandonado, com estruturas de madeira que pareciam ter sido utilizadas como camas, para os prisioneiros que eram utilizados nas fábricas de munições que foram instaladas dentro do campo de concentração e extermínio. Do lado de fora, um aviso dizia que o barracão estava fechado para conservação.

Quase todos alojamentos estão fechados para visitação

Dei meia volta e fui tentar outro dos 32 barracões. Um grosso cadeado na porta de madeira e as mesmas aranhas e poeira. Dentro, paredes com rabiscos visivelmente feitos com pedaço de ferro mostravam a tentativa de comunicação daqueles que ficaram trancafiados aguardando a morte no mais horripilante e tenebroso campo de concentração que o ser humano (???) já conseguiu construir.

Os turistas entram e saem aos montes – todos vivos – desta que é a maior atração turística da Polônia. Alguns parecem não sentir nada. Outros ficam com aquela cara de desespero alheio. Um grupo grande de jovens estudantes judeus, falando hebraico, acompanhavam o professor rechonchudo, com óculos fundo, camisa curta e quipá, na visita guiada. Uns ouviam atentamente o passado de seus ancestrais. Alguns riam, brincavam entre si, parecendo não dar importância ao fato dos nazistas terem exterminado ao mínimo 1,3 milhão de pessoas em Auschiwitz.

Turistas fazem a clássica foto da entrada de Auschwitz. A placa diz, em alemão, "Arbeit macht Frei", ou seja, "O trabalho liberta"

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