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Meu caro amigo me ajude, por favor. Por que não me faz uma visita? Aqui, eles estão jogando polo aquático. Não tem samba (ai, se houvesse!), nem choro, mas encontrarás folk, jazz e rock´n roll. E eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá amarela, pois o Sol não se cansa de colorir o rio Danúbio.

Imagine você que já adiei minha partida duas vezes. E, pelo visto, tantas outras adiarei. Estou com a peste que contraí em Buda. Aquela mesma que você teve quando sorveu o leite da sua mulher amada. Será que o problema foi a água usada que ela lavou a minha roupa? Tens algum remédio para me indicar? Já tentei as doses de Pálinka, mas quanto mais tomo, mais me prendo e mais aprendo essa língua que nem o diabo respeita.

Vista de Pest

Pois, Buarque, todos lhe conhecem aqui, sabia? A vendedora de livros falou maravilhas da sua escrita. Disse a ela que teus sambinhas são ainda melhores. Ela pediu pra eu cantar. Apontei a caixa de fósforos em cima do balcão e ela foi acendendo o palito. Fiz que não com a cabeça, tomei-a de suas mãos e tamborilei a roda viva da vida. Ela mexeu as cadeiras desajeitadamente e pediu para eu traduzir “roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão…”. Mudei de assunto, pois em inglês isso fica tão feio.

Vista do monte Buda

Estava pensando em comparar o Corcovado com o monte Buda. Acha que é exagero? Aqui do prédio em Pest eu vejo essa beleza imponente sem o Cristo, mas com a exuberante Citadella e seu castelo. Na minha opinião, vocês cariocas têm que agradecer diariamente a Deus. Se aqui tivesse praia, o Rio não seria a mais linda cidade do mundo, seria a segunda. Quão belas são as casas que se alongam pelo morro, grandes, com formosos jardins, rodeadas por árvores centenárias. Dizem que só os ricos vivem lá. Quiçá seja verdade.

Queria ligar para o velho Niemeyer. Teria ele já passado por aqui? Que overdose arquitetural é essa cidade? Estou com torcicolo. Ando olhando para o alto, admirando as construções e a dualidade entre o novo, o velho, o conservado e o arruinado. Tenho que tomar cuidado, meu caro Chico, já bati a cabeça no poste um par de vezes. Será que ando exagerando na Pálinka?

O Parlamento da Hungria

Você caminhava pela Andrássy durante a madrugada? Tenho passado frequentemente por ela, pois é caminho para eu chegar até à Izabella. Que nome para uma rua: Izabella!

Izabella Utca

No restaurante da esquina, já sou atendido em húngaro.

– Mit szeretne az ebéd? – pergunta todo dia o roliço garçom.

– Lángos – respondo, sempre como uma fome que nem me contem.

Já comeu Lángos, Chico? É uma boa opção para substituir o arroz branco, a farofa e a malagueta. Aliás, pimenta na boca deles é refresco. Enquanto eu tomo dois litros de água, eles bebem o suco da páprica.

Lembro que antes de eu partir, antes de você dizer pra eu pegar o avião, aconselhou-me a bater palma e fingir que fosse turista, caso sentisse saudade. E não é que me sinto um Budapestino? É estranho, mas me sinto em casa. Até a moeda, que contamos aos mil, já me é familiar.

Vista da Chain Bridge

Hoje de manhã, eu ouvi de Budapeste que ela queria ficar no meu corpo, feito tatuagem. Disse que era pra me dar coragem, pra seguir viagem, quando a noite viesse.

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