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Tem sido comum chegar a cidades que eu nunca ouvi falar na minha vida. Às vezes, aprendo a pronunciar seus nomes momentos antes de dar os primeiros passos em suas calçadas. Foi assim em Aarhus (Ôrrus), na Dinamarca, em Wroclaw (Vrost-Vav), na Polônia, Keszthely (Késirei), na Hungria, e também com a tal Timisoara (Timichoara), que tem cedilha no S, na Romênia.

No novo, bonito, mas abafado trem que tomei em Budapeste, me perguntei o que eu sabia sobre a Romênia? Um, que a capital é Bucaresti; dois, que a maioria dos pedintes na Europa é cigano romeno; três, que é a terra do Drácula; quatro, que eu não sei pronunciar Nicolau Ceauşescu, que é o nome do ditador que ficou no poder do país por 22 anos. Fora isso, mais nada.

Não tinha a menor ideia de que encontraria pela frente um país ainda muito imerso na roupagem comunista. Os blocos de apartamentos do regime soviético estão caindo aos pedaços, mas ainda são de grande serventia para os romenos. Com exceção do centro da cidade, que é cercado de uma meia dúzia de belíssimos e bem cuidados parques, e que teve influência do império austro-húngaro na arquitetura (há quem diga que o centro lembra Vienna. Acho exagero), o resto da cidade é tomado por essas grandes caixas retangulares de concreto, que têm aparência horrível, pintura descascada e rachaduras a torto e a direito.

Quando cheguei à estação de trem, dei logo de cara com o tipo dos mal-encarados romenos que, como já disse, perambulam pela Europa mendigando. Uns cheiravam cola, outros bebiam álcool. Tomei um ônibus até a casa de Ioana, minha amiga romena, e – como sempre, depois de me perder um pouco por vielas e ruas mal iluminadas e sinalizadas – encontrei seu prédio de estilo comunista. Era um pequeno, mas bem cuidado e aconchegante apartamento, com altar para Jesus Cristo e um espaço no chão reservado para o meu saco de dormir.

O primeiro assunto que levantei, enquanto tomava uma gigantesca xícara de chá verde, foi com relação aos ciganos. Ela, que é filósofa formada na França e na Áustria, me deu uma aula sobre essa etnia, que apesar de não ser originária da Romênia, fincou no país do leste europeu a maior comunidade do mundo, com 100 mil pessoas.

– Eles não sabem ler nem escrever, roubam sem escrúpulos, matam como se estivessem esmagando uma barata e são muito, muito ricos – disse ela, resumindo.

– Ricos? Como assim? Eu sempre os vi pedindo dinheiro na rua ou lendo a mão dos outros em troca de umas migalhas – respondi, bastante intrigado.

– Pois, você precisa ver os palácios que eles constroem aqui na Romênia.

Palácio de ciganos

No outro dia, fui checar essa história dos palácios. Perguntei a ela se não seria possível conversar com algum cigano e ela riu. Disse que eles male-male falam a língua local e que seria impossível encontrar algum deles que arranhasse algo em inglês e que entendesse o que eu queria com eles.

Tudo isso estava me deixando cada vez mais curioso. Quando vi o primeiro palácio cigano – meu irmãozinho chamaria de castelo -, fiquei perplexo. Era de fato um monumento arquitetônico belíssimo, suntuoso, cheio de detalhes, com pintura irretocável, que exigiu, sem dúvida, alguns milhões de euros.

– E eles são todos vazios por dentro – contou-me Ioana.

– Vazios? O que quer dizer com vazios? – repliquei.

– Que eles não têm móveis. Ninguém mora neles. Os ciganos são nômades. Eles vão por aí, montando e desmontando seus acampamentos, fazendo fogueira. Esses palácios são apenas para mostrar ao vizinho cigano de outra tribo que eles têm tão ou mais poder e dinheiro que eles.

– Mas de onde eles tiram esse dinheiro, se não trabalham, não leem, não escrevem? – perguntei, eufórico.

– Ninguém sabe ao certo. Eles roubam muito. Têm muito ouro. Colocam ouro até nos dentes – disse ela, sem me convencer com a resposta.

Crianças ciganas

Eu queria falar com um cigano. Saí pela cidade atrás de um, mas era difícil reconhecê-los. Os que eu sabia apontar eram aqueles que tinham os pés muitos sujos, mais dentes de ouro do que um rei, roupas coloridas e várias crianças semi-nuas e tão sujas quanto rodopiando em volta da saia da mãe, que é quase sempre ou muito magra ou muito gorda, com o cabelo despenteado e os pés também encardidos.

– Existem os ciganos que chamamos de limpos – disse minha amiga –, esses são ricos, têm carros importados e constroem esses palácios, que sempre estão em terras ilegais, mas que o governo e a polícia têm medo de colocá-los abaixo porque sabem do que eles são capazes.

– E como eles se parecem? – perguntei.

– Geralmente, os homens se vestem com calça social preta, camisa branca, têm uma enorme barriga, que demonstra saúde, e um vistoso bigode bem aparado. As mulheres vestem-se com roupas muito coloridas, bem parecidas com as indianas, muita maquiagem, jóias, pulseiras, colares e unhas grandes e pintadas.

Durante minhas andanças por Timisoara, vi dezenas de belíssimos palácios ciganos e nenhum sinal de vida. As casas realmente parecem estar abandonadas. Digo “parecem” porque se estivessem realmente abandonadas, dariam sinais disso, como folhas jogadas pelos imensos jardins de entrada, panfletos jogados por entregadores etc. Mas não há sinal de sujeira. Alguém toma conta daquilo tudo.

Enquanto os palácios fantasmas existem, os romenos, que não são ciganos, lutam para sobreviver em um país que está economicamente quebrado.

Desde que se juntou à União Europeia, em 2007, a situação, que era para melhorar, está piorando. O salário mínimo gira abaixo dos 200 euros, considerado baixíssimo na comunidade europeia, e a maioria dos jovens imigra para Áustria e outros países ricos da Europa Ocidental em busca de melhores universidades e oportunidades de emprego.

No restaurante à beira do rio que corta a cidade, Ioana e eu comemos um delicioso tradicional prato de polenta com carne de porco enrolada em repolho sob um molho branco indistinguível, bebemos uma saborosa cerveja local não filtrada e ainda matamos uma inesquecível sobremesa de panquecas doces, recheadas com queijo, cobertas por uma camada de clara de ovo e cobertura de chocolate. A conta de tudo deu menos de 10 euros. Prova de que o país está mal das pernas quando o assunto é economia.

Na estação do trem, rumando à capital Bucaresti, fiquei perplexo com o estado indescritível dos vagões do trem, que parou na plataforma cinco. Minha passagem de segunda classe, no último vagão do trem, me deu uma experiência antropológica que meus olhos e nariz demorarão a esquecer. Cinco romenos e eu em uma cabine, com poltronas velhas, não reclináveis, juntos, como sardinhas, por nove horas.

Eu gostaria de descrever detalhadamente os cinco romenos, mas isso tomaria mais umas cinco páginas desse blog. Contentem-se com os apelidos que dei a eles:

1)      o velhote com sua garrafa de álcool e suas meias sociais pretas putrefatas;

2)      o filho do velhote com suas revistas pornográficas;

3)      outro velhote que não aguentava o cheiro das meias putrefatas e que bufava de três em três segundos;

4)      o leitor que folheou por cinco horas um jornal de esportes de oito páginas;

5)      e o irmão romeno do Seu Barriga, com papetes pretas e meias brancas, que do início ao fim conversou comigo em romeno e se contentou com meus sons guturais que não significavam absolutamente nada.

A chegada em Bucaresti foi confusa. A estação central é uma desordem e, para ajudar, eram cinco da manhã. Eu precisava encontrar o local de onde três companhias de ônibus operavam ônibus para a cidade de Varna, na costa da Bulgária. Arrisquei inglês com uma meia dúzia e depois dos insucessos fui para o meio da rua. Vi quatro ônibus repletos de turistas italianos, franceses e alemães. Propinei o motorista, consegui um lugar no ônibus e pude dormir um pouco até a fronteira da Bulgária, onde o oficial da imigração perguntou se eu estava indo jogar futebol em seu país.

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