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Por alguma razão que não sei explicar, a maioria dos ônibus de viagem que circulam na Europa não tem banheiro. Não importa se a viagem vai durar 10 horas, a chance de você passar apuros é grande. No início da tarde de um domingo de sol, com aquela sensação de que a minha bexiga explodiria se eu desse mais alguns passos, desci na cidade de Varna, que fica na costa da Bulgária. Encontrei rapidamente uma rua não movimentada, escolhi a árvore que parecia mais seca e aliviei a tensão.

Quando voltava para a avenida principal, vi um anúncio muito esquisito no portão marrom de uma casa humilde. Era uma folha A4 com a foto do rosto de uma senhora e várias frases escritas em búlgaro. Tentei decifrar alguma coisa, mas, como o alfabeto utilizado na Bulgária é o cirílico, não entendi absolutamente nada. Tirei uma foto para depois mostrar à minha amiga que me hospedaria a partir do dia seguinte.

Encontrei essa foto na Internet que mostra um conjunto de anúncios

Peguei o endereço do albergue que havia encontrado na Internet e perguntei como chegar a um jovem rapaz que misturava inglês e búlgaro nas respostas. Segundo ele, não seria fácil. O local não era exatamente em Varna, mas em uma vila a uns 10 quilômetros de distância, do outro lado da baía. E de fato foi uma aventura achar o hostel.

– Galata? – perguntei ao motorista do ônibus, referindo-me ao nome do vilarejo.

Ele fez que não com a cabeça e, por isso, recuei. Ficou me olhando, parado, com a porta do ônibus aberta e começou a praticamente latir em búlgaro. Com a mão, fez gestos para que eu subisse no coletivo. Dropei no pau velho e fui entregando a minha nota de 5 Levs a ele como pagamento da passagem. Ele fez que sim com a cabeça, mas não pegou a nota. Novamente, ficou me olhando e exasperou mais sentenças ininteligíveis. Uma senhora me puxou pelo braço e mostrou que no fundo do ônibus havia uma mulher coletando o dinheiro da passagem de cada um.

Pois, depois de ver pela Europa as mais diversas formas de pagar uma passagem de ônibus  – acreditem, cada país tem a sua regra –, eis que chego à Bulgária e dou de cara com o método que apelidei de “cobradora ambulante”. Ao invés de ficar sentadinha em um banco confortável, com encosto de bolinhas, em Varna, uma simpática senhora de óculos grandes, vestido florido e sandálias pretas desgastadas passeia pelo ônibus a cada subida de um novo passageiro.

Depois de subir vagarosamente muitas serras, o ônibus começou a descer e eu imaginei que estivesse chegando perto do meu destino. Perguntei à cobradora ambulante se ali era Galata e ela fez que sim com a cabeça. Dei sinal e desci.

Na rua, mostrei a um senhor o endereço escrito em letras garrafais em um papel – essa é a minha tática em países nos quais ninguém fala inglês. Ele começou a tagarelar e eu o cortei, apontando com o dedo se ali era a tal Galata. Ele fez que sim com a cabeça, mas ao mesmo tempo apontou para um horizonte ainda mais longe e fez sinal dizendo que eu deveria tomar de novo o ônibus.

Em 20 minutos, veio capengando pela estrada outro ônibus verde-musgo. A mesma história se sucedeu. Perguntei ao motorista e ele fez que não com a cabeça. Ficou parado, com a porta aberta e quase me puxou pra dentro do ônibus. Subi e esperei que outra jovem senhorinha, de óculos, vestido florido e sandálias viesse buscar minha moeda de 1 Lev. Então, 15 minutos depois, perguntei a ela se ali era Galata. Ela fez que sim com a cabeça e eu desci do ônibus.

Olhei meu mapa e percebi que ainda estava a uns três quilômetros de distância de onde eu deveria chegar.

– Por que raios as jovens senhoras cobradoras ambulantes faziam que sim com a cabeça dando a entender que eu deveria descer se ainda não era Galata? – perguntei à dona do albergue, depois de andar mais uns 40 minutos para encontrar aquilo que é um “projeto” de hostel, pois na verdade é uma casa normal que ela aluga quartos para gringos perdidos, como eu. A mulher começou a rir ininterruptamente com a minha questão.

Tomei um banho e dormi longamente naquele domingo. A viagem de Timisoara até Varna tinha durado, no total, quase 18 horas. No outro dia, acordei cedo e fui ver a praia de Galata. Desci uma longa escada de concreto construída por entre árvores de no mínimo uns quinhentos degraus e me esbaldei na transparente, limpa e agradável água do mar negro. Nenhum turista à vista, somente alguns moradores de Galata que, diferente de Varna, não é nada turística.

As límpidas águas de Galata

No final da tarde, encontrei a minha amiga búlgara, na avenida principal de Varna. Ekaterina é bem jovem, cheia de energia e sonhos. Vestia uma bermuda de skatista e uma camiseta que dizia “Have Faith”, ou seja, “Tenha Fé”. Ela disse que não gosta dos russos, não gosta dos turcos e não gosta do que é diferente. Apesar de seus desgostos, ela tem um coração enorme e uma risada lunática, tão alta quanto um berro de dor. Fui contando as minhas peripécias na Bulgária e ela foi soltando a voz em gargalhadas estridentes.

– A Bulgária é um país bem diferente. Quando queremos dizer sim, fazemos que não com a cabeça. Quando queremos dizer não, fazemos o sinal de sim. Eu não faço isso, porque sou da nova geração. Mas a minha irmã de 28 anos continua fazendo, imagine as cobradoras de ônibus – explicou-me a garota, depois que conseguiu amenizar o ataque de risos.

Kate também me explicou porque centenas de casas e árvores continham a tal folha sulfite com a foto de alguém e um texto de mais ou menos 10 linhas. São anúncios de morte. Quando alguém vai ter com Deus ou o Diabo, a família monta esse anúncio, que sempre traz uma bela poesia e a foto do ente querido, e cola na porta de casa e nas árvores da vizinhança que o falecido (a) costumava viver.

– Existe uma lenda que diz que se você ler o anúncio, alguém da sua família vai morrer em breve – contou-me Kate.

Seguimos para a casa dela, onde jantamos frango, vegetais cozidos e tomates orgânicos. Comida plantada, colhida e preparada pela mãe de Kate, que continua vivendo onde deu a luz às duas filhas. A cidade nada mais nada menos é aquela que os parentes da senhora excelentíssima presidenta Dilma Vana Rousseff nasceram: Gabrovo.

Tentei traçar paralelos entre as personalidades das duas moças de Gabrovo que estavam me hospedando com a nossa presidenta, mas desisti. A tarefa seria mais ou menos como plantar bananas no milharal.

Vista aérea da cidade de Varna

Dos cinco búlgaros que conheci, quatro deles falaram sobre a presidenta brasileira com raízes búlgaras. Dilma é famosa nesse país de pouca influência internacional e economia devagar-quase-parando.  Até agora, foi o lugar mais barato que passei. Na livraria, comprei dois livros do travel-writer americano Paul Theroux por menos de R$10,00. Minha refeição no restaurante, com bebida e sobremesa, ficou em R$5,00.

Deixei Varna com a sensação de estar iniciando uma nova viagem. Foi o fim da Europa. Exatos 89 dias de viagem, 14 países, 34 diferentes camas, sofás, superfícies planas e não-planas no chão, muitas caronas, ônibus, trens, dois aviões e amigos que reverei com absoluta certeza no futuro. Quando subi no ônibus rumo à Turquia, prometi a mim mesmo repetir as aventuras e desventuras europeias no continente asiático.

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