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Não consigo adjetivar minha sensação quando desci do ônibus na rodoviária central de Istambul. Nasci e cresci em São Paulo. Conheço bem e sempre estive em compasso com o ritmo acelerado de uma cidade com muitos milhões de pessoas. Por anos, frequentei populosos estádios de futebol; nos meus 18 anos, cheguei a trabalhar em uma loja que minha mãe tinha na rua 25 de março, considerada o maior formigueiro a céu aberto da América Latina; morei na rua Augusta (que saudade!) e vivi as intermitentes vibrações paulistanas. Eu pensava que tinha credencial para encarar Istambul. Mas ela me atropelou.

O espaço é curto

 

É (muita!) gente andando rápido (demais!), toda sorte inimaginável de camelôs, bancas de comidas de rua e um trânsito barulhento, caótico, que não respeita o pedestre e é teste de sobrevivência. Não acreditei quando vi meninos de 10 anos com uma balança em frente de seus pés cobrando qualquer moeda para uma pesagem corporal. Há também aqueles que vendem lenços de rosto na porta das mesquitas, os que vendem mexilhão com arroz e os que andam para lá e para cá oferecendo perfumes falsificados.

Ainda dentro do moderníssimo ônibus turco que me levou da Bulgária a Istambul, enquanto enfrentávamos uma hora de trânsito para entrar na cidade, recebi um cartão-postal de boas vindas: um pôr-do-sol exuberante, baixando em vários tons de amarelo, vermelho e ocre sobre centenas de prédios, enquanto os alto-falantes das mesquitas, com seus minaretes em silhuetas, convocavam os mulçumanos para uma das cinco preces diárias exigidas pelo Alcorão. O som que ecoa em árabe por toda a cidade arrepia até mesmo os céticos.

Mesquitas e seus minaretes

Um italiano, que conheci no ônibus, e eu decidimos seguir juntos até o centro da cidade. Tivemos que tomar um metrô, um bonde e mais outro metrô, ou seja, três conduções e 1h30 de deslocamento, algo comum em grandes cidades. Já passava das 22h quando encontrei Gulsah, minha amiga turca, na praça central da cidade, em Taksim, no lado europeu. Nas quatro primeiras noites, dormi no apartamento dela, que fica no lado asiático, no famoso bairro de Kadiköy.

Vista do lado asiático sob o ponto de vista do lado europeu

Dias antes de chegar à Turquia descobri que os mulçumanos estavam sob o mês do Ramadã, que é quando ninguém deveria beber, fumar, fazer ou pensar em sexo. Isso sem contar a necessidade de jejuar durante todo dia e só comer antes de o Sol nascer e depois que ele cair. Usei o verbo deveria porque na Turquia nem todo mundo segue à risca os mandamentos.

– Por que algumas mesquitas têm dois minaretes ao invés de um? – perguntei à Gulsah, enquanto caminhávamos da estação de balsas até a casa dela.

– Não sei te explicar – respondeu ela, sem jeito.

– Você não é mulçumana?

– Mulçumana, mas não praticante. Não sigo todas as regras.

Reiterei frequentemente a pergunta e nenhum dos turcos que tive oportunidade de conhecer e conversar soube me dizer com precisão a resposta.

Também não senti firmeza quando ouvi sobre as diferenças entre as mulheres que usam lenços na cabeça (Hijab), as mulheres que cobrem todo o corpo, mas não o rosto (Chador), as mulheres que cobrem todo o corpo, menos o rosto e o pescoço (Shayla), as mulheres que só deixam aparecer os olhos (Niqab) e as mulheres que não deixam aparecer nada (Burca).  Pesquisei para entender um pouco, mas confesso que não me sinto apto para escrever sobre. É tudo muito complicado, envolve séculos e séculos de história e não quero dar moral a um costume religioso que poda em absoluto a liberdade feminina e a coloca em posição submissa ao homem.

Encontrei essa imagem na Internet, como exemplo

Pelas ruas de Istambul, o comum é ver mulheres usando o Hijab. Geralmente, estas são turcas. Mulheres que usam Chador, Shayla ou Niqab majoritariamente são provenientes de países árabes e são turistas ou imigrantes. A Burca, somente utilizada no Afeganistão e em algumas áreas do Paquistão, é uma imposição dos talibãs.

Sinto que a juventude turca está caminhando para um horizonte cada vez mais laico. Eles não são tão presos a algumas tradições. O jovem turco não vai à mesquita, veste roupa do ocidente, tem gel no cabelo, ouve música americana, dança salsa e toma porre durante o Ramadã. A República da Turquia é secular, mas ainda assim existem sinais da influência religiosa. No ônibus de viagem, por exemplo, homens e mulheres não podem se sentar lado a lado caso não se conheçam.

O que mais gostei de fazer em Istambul? Pegar o barco e cruzar o estreito de Bósforo

Foi sorte ficar durante os primeiros dias no lado asiático de Istambul, muito menos turístico que o europeu. Peguei o barco várias vezes de um lado a outro. A travessia é de tirar o fôlego, especialmente se o Sol estiver caindo. A cor do estreito de Bósforo, que separa Istambul em duas partes, varia de azul escuro para verde-água com facilidade. O som das águas se movendo desordenadamente por causa do tráfico de balsas que vão e vêm nos mobiliza profundamente. As silhuetas dos palácios e mesquitas nos tiram a necessidade de piscar os olhos.

A verdade é que não existe muita diferença entre o lado europeu e o asiático, excetuando-se o turismo e as atrações turísticas propriamente ditas – que estão em sua maioria no lado europeu. Mesquita Azul, Museu de Santa Sofia, Cisternas medievais, Palácio Topkapi o Grande Bazar e o Bazar de Especiarias.

Eu preferi pular os lugares 100% habitados por turistas, que são muitos em Istambul, a sétima cidade mais visitada no mundo, mas dei uma olhada de 10 minutos no Grande Bazar.

– Além de lotado, não existe um único item ali dentro que o ser humano precisa essencialmente para viver. Eles só vendem o que é supérfluo – ouvi de um amigo antes de entrar no gigantesco galpão.

Quando sai, concordei com ele. Um monte de loiros com câmeras fotográficas a tira colo comprando enfeites para suas casas, como porcelanas, tapetes, quadros, lustres, abajures, antiguidades reproduzidas na China, doces turcos, roupas, óculos escuros, jóias, relógios, lenços para o cabelo com etiquetas Dolce & Gabbana etc e tal. Pouco me atrai esses mercados que um dia foram autênticos e locais e hoje são reproduções das quinquilharias mundiais.

Achei o bazar de especiarias mais interessante

Ao redor da Torre de Galata, construída no século XV, eu fiquei por mais quatro dias. É um distrito bastante turístico de Istambul, mas foi ali que Coskun, um amigo turco, me apresentou a fundo a culinária turca, fortemente baseada em carne, pimentões, pepinos, tomates e azeitonas pretas. Aliás, eles comem azeitonas pretas no café da manhã. Foi ali também que experimentei muitos diferentes tipos de chás. Os turcos bebem o mesmo tanto de chá que os brasileiros bebem de café. Esta é a relação. A bebida nacional é o chá e ele é servido em um copo especial.

Os turcos não vivem sem chá

O chá mais gostoso que tomei foi quando saí da minha sessão de banho turco. Ao final, enquanto você está enrolado, ou melhor, praticamente empacotado, por uma toalha que cobre a parte debaixo, outra toalha maior e mais grossa que lhe serve como uma jaqueta para a parte de cima e, por fim, uma terceira toalha que lhe envolve a cabeça e fica com a forma de um chapéu -, eles lhe servem um delicioso chá de maça em um copo especial, enquanto você relaxa em uma confortável cadeira colocada de frente para uma hipnótica fonte de mármore com pequenas carpas ornamentais. Paguei caro (R$ 80,00) pelo banho turco, seguido de esfoliação e massagem. Foi o meu presente de aniversário para o centésimo dia da viagem.

Quando entrei no Hamam, que é como eles chamam o local, fiquei espantado com a beleza das paredes e do piso de mármore. Um senhor de barriga enorme, bigode pomposo, somente utilizando sinais me fez entender que eu deveria calçar aquelas sandálias de couro especiais, subir as escadas, encontrar a sala 236, deixar meus pertences lá e retornar para a recepção. Deu-me um pedaço de pano que parecia toalha de mesa de piquenique e fez sinal para que eu não vestisse nada por baixo e me cobrisse com a toalha.

Este é o Hamam que eu frequentei

Quando desci, as sandálias de couro foram trocadas por sandálias de madeira com mais de 10 cm de altura. Desajeitado, cruzei a sala de recepção, passei por uma porta grossa e adentrei uma sala com uma grande pedra de mármore no meio e muitas pias com torneiras banhadas a ouro espalhadas pelos cantos. O local era quente, menos que uma sauna, mas na faixa dos 50°C. Estenderam uma toalha para mim, deitei e fiquei ali suando por 20 minutos.

Outro senhor de barriga grande e bigode pomposo começou a passar sabonete pelo meu corpo e a fazer uma massagem que mais me machucou do que me relaxou. Ele apertava meus músculos perto do joelho e eu quase gritava de dor. Não durou muito a sessão de tortura. Com sinais, ele pediu para eu sentar ao lado de uma das pias. Com uma bacia de água ele começou a me enxaguar. Depois, com uma espécie de espanador imerso em uma solução de sabão, ele esfoliou minha pele e deu mais alguns apertões em músculos das minhas costas. Outra sessão de enxágue e eu estava pronto para ser empacotado por outro senhor barrigudo de bigode pomposo.

Os turcos gostam de bigode. Na rua, a concentração de bigodes por metro quadrado é gigantesca. Por isso, eles têm muitas barbearias. Saindo do banho turco, passei em uma e perguntei se ele poderia raspar meu cabelo.

– Number one or two? – perguntou o barbeiro com um inglês sofrível.

– Number two, please – respondi.

Pois, ele usou o pente número um da máquina e eu fiquei bem careca. Não reclamei, pois isso não traria meu cabelo de volta e balancei a cabeça positivamente quando ele passou o espelho por trás e abriu um sorriso esperando aprovação. Ao invés de lavar a cabeça em uma cadeira especial para isso, na Turquia eles preferem instalar pias em frente às cadeiras de corte. Assim, no final da obra-prima ele afundou minha cabeça na pia e lavou aquilo que sobrou do meu cabelo.

PS: Todas as fotos são do Getty Images. Eu doei a minha câmera. A partir de agora, não terei mais fotos.

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