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Saysha vestia um chapéu de “cowboy”, camisa preta para dentro da calça jeans desbotada e tênis gasto, com o solado aberto nas laterais. Metralhando os visitantes com seu inglês decoreba, que aprendeu para garantir o sustento trabalhando como guia turístico, começou a explicar a origem daquela cidade construída há 4 mil anos (!!!) pelos hititas, povo que habitou por muitos séculos o que hoje compreende a Turquia central e também a costa leste do mar mediterrâneo, na atual região da Palestina.

– Na Capadócia existem cerca de 300 cidades subterrâneas como esta que iremos visitar. Pouco mais de 30 estão abertas aos turistas. Ninguém sabe muito bem quando elas foram construídas e hoje em dia ninguém vive nelas, mas meus avós moraram aqui por um tempo – explicou o rapaz de dentes grandes, mãos inquietas e testa enrugada.

Uma abertura de não mais de 50 centímetros de altura no sopé da gigantesca rocha de formato fálico é a porta de entrada para a cidade subterrânea de Mazi, que fica perto do vilarejo de Derinkuyu, na região da Capadócia. Com seu andar troglodita, Saysha foi à frente e se enfiou no buraco como uma lagartixa que foge do predador. De lanterna em punho, ouvi algumas curiosidades sobre aquele labirinto empoeirado, escuro e gélido.

– Quantos andares tem a cidade? 20. Quantos quartos? Incontáveis. Quantas passagens secretas? Inúmeras. Quantas pessoas viveram aqui? Ninguém sabe, mas com certeza muita gente – disse Saysha, apontando com a lanterna que deveríamos passar para o próximo cômodo.

Descemos caverna adentro. Na maioria dos túneis, precisei rastejar para chegar ao outro lado. Quanto mais abaixo íamos, mais frio fazia.

– Quantos graus mais ou menos? – perguntei.

– Depende. Cada ambiente tem uma temperatura. Este aqui, que era a sala de jantar, deve estar em uns 14 graus (Celcius).

– Mas e no inverno? Como as pessoas se esquentavam?

– No inverno, as cavernas são mais quentes que a temperatura exterior.

Não conseguia acreditar no que estava vendo, parecia filme de ficção da sessão da tarde. Descemos cinco andares e Saysha mostrou elaboradas cozinhas com chaminés e buracos no chão para acomodar grandes panelas; salas de jantar com mesas e longos bancos esculpidos em pedra; ambientes mais quentes que serviam de dormitórios; estábulo para animais, como cavalos, vacas e ovelhas, que sempre ficavam nos primeiros andares das cidades; portas feitas com grandes pedras redondas; buracos na parede que serviam como canal de comunicação com os outros andares e com o ambiente externo; uma engenharia que os arqueólogos chamam de rudimentar, mas que impressiona qualquer fã da Apple.

Além das cidades subterrâneas, na Capadócia existem milhares de casas e igrejas construídas dentro de rochas acima da superfície. Algumas delas têm vinícolas ou meliponários. As igrejas cristãs têm afrescos do século IX, que mostram Jesus Cristo e também o santo da região, São Jorge. Essas igrejas foram largamente usadas pelos gregos que habitaram a região até o início do século XX, quando veio à tona a revolução de independência turca e eles foram mandados de volta para seu país de origem (longa história que resumi em uma linha). Durante uma das caminhadas que dei na região, pude perceber que ainda existem pessoas que utilizam as cavernas como moradia, mas são bem poucas, segundo me contaram nativos que conversei.

Uma australiana que estava no mesmo grupo que visitou a cidade subterrânea me perguntou, como se eu fosse um profundo conhecedor de geografia, como a Capadócia havia se formado. Eu brinquei dizendo que havia sido em algum período B.G. (Before God – Antes de Deus). A paisagem é tão linda que muita gente prefere apelidá-la de “lunar”. Tive que recorrer à (nem sempre precisa, mas sempre explicativa) Wikipedia para entender um pouco melhor como o universo criou algo tão único e deslumbrante. Resumi a história e tirei os termos que nossas memórias não decorariam com uma simples leitura.

A paisagem da região é o resultado da ação de forças naturais ao longo de milhões de anos. Há 60 milhões de anos formou-se a cordilheira de Tauro. A formação desta cordilheira deu origem a numerosas elevações e depressões. A atividade dos vulcões da Capadócia, há cerca de 10 milhões de anos, cobriu a região de rochas de diferentes densidades. Mais tarde, depositaram-se lavas basálticas bastante mais duras. Sob o efeito do arrefecimento do clima, a crosta basáltica abriu fendas e o solo desagregou-se, permitindo que a água e neve se infiltrassem e acentuassem a erosão, mais acentuada nos estratos mais macios, isolando cones de material mais resistente e escavando vales. Durante os períodos mais secos, foi a erosão dos ventos e da areia que foi mais determinante na modificação da paisagem. Este tipo de erosão é mais notável na superfície dos cones. Quando na parte superior destas elevações existe rocha basáltica, são formadas as “chaminés de fadas”. As zonas sem basalto deram origem a vales, as zonas de tufo macio desagregaram-se completamente, formando zonas planas poeirentas, enquanto que nas encostas, a erosão esculpiu desfiladeiros, mesas, escarpas, pirâmides de 15 a 30 metros, picos, agulhas que por vezes lembram minaretes, cones e chaminés de fadas. A erosão continua nos nossos dias: os picos e cones atuais vão desaparecendo lentamente, ao mesmo tempo que outros se estão a formar nas encostas à beira dos planaltos.

Não conseguiria explicar o que é a Capadócia sem a ajuda da Wikipédia. Obviamente, a singularidade desta região não passaria incólume ao apetite do turismo. A economia da região é movimentada pelos quase 2 milhões de turistas que visitam o local todo ano. Eles vão a procura dos caríssimos passeios de balão (R$250,00 por uma hora), das cidades subterrâneas, das chaminés de fada, dos vales e do museu de céu aberto de Göreme, que é patrimônio mundial da Unesco.

Caminhei por horas debaixo do Sol pelas trilhas dos vales Vermelho e Rosa e me emocionei muito mais que quando vi a dúzia de igrejas do museu de céu aberto empesteadas de turistas. Me perdi, entrei em túneis que não sabia onde iam dar, vi parreiras, macieiras, e melões crescendo junto ao solo. Todos sem donos, sem ninguém por perto. A sensação é que eu estava sozinho no mundo. As montanhas e eu.

Chaminés de fada

Para sair da cidade subterrânea, Saysha nos deu duas opções: a primeira era voltar praticamente rastejando até os andares superiores; a segunda era escalar com os e braços e as pernas uma espécie de escada vertical, com degraus que na verdade eram buracos na parede e que deslizavam bastante. Era preciso cuidado. Decidi ir pela escada. Fui o primeiro do grupo a começar a subida. Confesso que não achei tão difícil, apesar da poeira e da necessidade de concentração para não escorregar e colocar tudo a perder. Quando vi a fresta de luz, fui correndo tomar ar puro e dei de cara com o vilarejo em que Saysha cresceu. A mesquita com seu pequeno minarete estava emitindo um som que tinha alguma relação com o casamento que estava acontecendo naquele momento. Quando terminou, os noivos saíram em comboio, buzinando e sendo aplaudidos pelos que assistiam à cerimônia.

Perguntei ao Saysha como os avós dele viveram ali naquela cidade subterrânea.

– Eles cuidavam dos animais, das plantações, voltavam, cozinhavam e dormiam com quando o sol se punha. Era uma vida monótona, mas sem dinheiro e sem preocupações. Não havia nada para comprar. Eles apenas tinham que se preocupar com o que teriam que comer. Mais nada.

– Você acha que eles eram felizes? – cutuquei o rapaz, que ficou pensativo por um tempo e me respondeu com um sorriso tímido e um balançar de cabeça que dizia “sim”.

“E isso nem faz tanto tempo assim”, pensei comigo.

 

 
Fotos: Getty Images

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