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Enxuguei o suor da testa, passei a língua ao redor dos meus lábios ressecados pelo estúpido e constante Sol de mais 40 graus e entrei em uma “casa de chá” para escrever este texto. Confesso que não sabia por onde começar, tantas foram as impressões e histórias que ouvi no país que um dia já foi de Saddam Hussein. Não exagerei quando escrevi em meu diário que “vivi, senti e pensei muito mais durante uma semana no Iraque que em quase quatro meses de andanças pela Europa”.  

Casa de chá

Na imigração, me serviram chá, perguntaram se o Zico era um bom técnico (ele é o novo técnico da seleção de futebol do Iraque), se eu era parente do Ronaldo, se no Brasil era quente ou frio (frio perto desse calor, pensei), mas não fizeram as enfadonhas e protocolares questões tão comuns em fronteiras.

– Seja bem-vindo e se precisar ficar mais tempo em nosso país, procure um escritório de imigração – disse o oficial, que apesar do sorriso e amabilidade, carregava no colo algum fuzil que não sei classificar.

Na saída, um senhor gordo, humilde, de mais de 50 anos, vestido com tradicionais trajes árabes, pouquíssimos dentes na boca, estendeu-me a mão e perguntou emocionado: “Brrrréééézil???”. Assenti com a cabeça. Ele aproximou-se, me deu um beijo em cada bochecha (como é tradição entre os homens) e eu senti seu forte e azedo cheiro de suor. Tirou da pequena bolsa que carregava um pedaço de papel e com gestos pediu uma caneta. Enquanto sorria, escrevia em árabe (presumindo que eu entendesse) alguma coisa que mais tarde descobri ser seu endereço, nome completo e telefone. Ele era o primeiro a me oferecer hospedagem, mesmo não falando sequer “hello”.

No ônibus, enquanto esperávamos o restante dos passageiros carimbarem seus passaportes, um rapaz sentado no banco da frente puxou papo para a minha felicidade. Eu pensava que ninguém falasse inglês naquele ônibus repleto de famílias, crianças dormindo no chão, mulheres com rostos cobertos, senhores de bigode, “cachorros, galinhas e papagaios”.

– Meu nome é Amaar. Sou de Bagdá. Sou rico. Você vai ficar na minha casa – esta foi a terceira frase que ele proferiu em um inglês muito quebrado, depois de perguntar de onde eu era e para onde estava indo.

– Mas tenho que ir ao curdistão iraquiano, porque meu visto não é válido para a área árabe – expliquei a ele, agradecendo o convite e a hospitalidade.

O Iraque é dividido em dois. Na autônoma área do Curdistão, ao norte do País, vive a população curda. Eles têm presidente, ministérios, políticas próprias, mas estão submetidos ao governo central de todo Iraque e dependem dos royalties do petróleo, que é a principal e uma das únicas receitas do país. Para se ter ideia, não existem impostos no Iraque, tão grande é o volume de dinheiro obtido com a produção e venda de petróleo.

O que seria do Curdistão, caso ele existisse oficialmente

O Curdistão é conhecido por ser o maior país do mundo que não existe. Calcula-se que exista mais de 40 milhões de curdos espalhados pelo leste da Turquia, norte do Iraque, oeste do Irã e em uma pequena porção de terra ao norte da Síria.

No restante do Iraque, o que inclui a capital Bagdá, a etnia é árabe. Para entrar nessa área não é fácil. Somente jornalistas com propósitos definidos e aceitos pelo governo e homens de negócio é que conseguem o visto. Viajantes como eu não são bem-vindos.

Amaar fez cara de poucos amigos, disse uns palavrões e falou que eu estava errado, que eu não precisava de visto nenhum e que aquele ônibus tinha como destino final sua cidade natal, Bagdá, e que eu iria, sim, com ele até o final e que eu poderia ficar o tempo que quisesse em sua casa. Quando terminou de dizer isso, ele pediu a duas crianças que estavam sentadas no banco ao meu lado para trocarem de lugar com ele.

– Eu fui soldado e lutei com os americanos por sete anos – disse ele, referindo-se à ocupação americana que teve início em 2003 com o objetivo de derrubar o regime de Saddam Hussein e implantar um estado democrático.

– Bom dinheiro? – perguntei.

– Muito bom. 700 dólares por mês (R$1.100).

– E você ainda é do exército?

– Não. Sobrevivi a um atentado, mas minha perna não serve para mais nada – respondeu ele, abaixando lateralmente a calça, mostrando uma cicatriz gigantesca.

Amaar, que hoje tem 30 anos, era parte de uma equipe composta de 14 americanos e dois iraquianos. Em 2009, quando as coisas já começavam a se acalmar, o caminhão de sua equipe explodiu sem mais nem menos; 15 morreram. Hoje ele trabalha como marceneiro seis dias por semana, assiste a filmes hollywoodianos e ouve Britney Spears.

– Você precisa ir comigo a Bagdá. Preciso de amigos. Não tenho amigos – disse ele, justificando sua insistência.

Enquanto conversava com o soldado sobrevivente eu notava que o cenário fora do ônibus mudava radicalmente. As casas não tinham pintura, todas de concreto à mostra. A qualidade da estrada caiu vertiginosamente. Uma poeira amarela parecia estar impregnada no ar quente. Sujeira e homens armados do exército eram vistos por toda parte.

Loja no Curdistão

Na geladeira do restaurante de beira de estrada, só havia água para ser vendida. Amaar e eu almoçávamos um kebab com colheres, como é a tradição no Iraque, quando de repente houve um corte de energia. Ninguém soltou nenhum “ahhh”, como é comum no Brasil, e nenhum “êêêê” quando a luz voltou. Mal desconfiava que durante minha passagem pelo Iraque eu iria presenciar incontáveis cortes de energia.

Quando o ônibus chegou a Erbil, que é a capital do curdistão iraquiano, prometi a Amaar que tentaria o visto para ir visitá-lo em Bagdá. Desci na entrada da cidade, em meio a uma dezena de novos prédios em construção. Não tinha a menor ideia de onde eu estava.

Vista áerea da cidade de Erbil, com a Citadel ao centro

Telefonei para um contato que eu havia conseguido com um viajante.  Sardar, um jovem de 26 anos, alto, magro, bem vestido, apareceu com seu carro branco, caindo aos pedaços. Dois beijos no rosto depois, ele me levou ao centro da cidade para encontrarmos um hotel. O mais barato que consegui me custou 20 dólares. Não tenho habilidade descritiva para explicar o que era o banheiro comunitário daquela espelunca. Na primeira noite, consegui não utilizá-lo, mas na segunda noite tive que encará-lo. Por alguma razão que ainda não consegui descobrir e tive vergonha de perguntar, nenhum banheiro no Iraque, incluindo o do hotel, tem papel higiênico. Aliás, como eu já sabia, a partir de agora, privadas também seriam artigos de luxo.

Este banheiro é uma maravilha comparado ao do hotel

Sardar é exemplo da incrível e imensurável hospitalidade do povo curdo. Ele se desculpou trocentas vezes por não poder me hospedar em sua casa que era muito pequena e repleta de familiares. A título de compensação, ele foi um verdadeiro guia e me levou para conhecer a cidade e também para um vilarejo nas montanhas.

Os turbantes e as tradicionais roupas curdas

Estacionamos o carro nesta vila de não mais de 50 casas e minutos depois havia um grupo de crianças nos rodeando. Andamos um pouco pelas ruas e a primeira mulher que vimos nos ofereceu um copo de água, que depois se transformou em convite para conhecer a casa, a família, e então um copo de chá. Depois veio o almoço e, por fim, o convite para pernoitar por ali.

A família era grande e a casa espaçosa, mas muito simples. Na sala de estar, confortáveis tapetes no chão são usados para sentar. Uma pequena televisão e quadros na parede com fotos da família compõem o cenário. O pai, a mãe e os seis filhos assistiam Sardar e eu almoçarmos deliciosos ovos, iogurte e pães caseiros, tomates e pepinos plantados na pequena horta. Sardar traduzia minhas perguntas. Eles me ensinaram algumas palavrinhas em curdo. O mais velho dos cinco filhos me perguntou por que eu viajava.

– Viajo para conhecer semelhantes que são diferentes – respondi.

Nada como ser bem recebido

Depois de alguns dias em Erbil, segui para outra grande cidade do Curdistão: Sulimani. Considerada a mais liberal cidade da região, foi lá que conheci Rebaz, meu anfitrião, que havia acabado de voltar da Índia, depois de três anos de estudos. Fiquei em sua casa e novamente vivenciei o que apelidei de “overdose de hospitalidade”. Café da manhã na cama todos os dias, comida da boa e da melhor, conheci seus pais, irmãos, amigos, vizinhos, todos muito curiosos para conhecer o brasileiro que visitava o curdistão iraquiano.

Sulimani durante a noite

Rebaz e sua família tiveram vida dura nos anos que Saddam estava no poder. O pai do rapaz era um soldado curdo e lutava pela independência da região. Em 1991, quando as tropas curdas tentavam expulsar o exército de Saddam de Sulimani, a família de Rebaz precisou ir se esconder na fronteira com o Irã.

– Foram 11 dias de caminhada até o acampamento de refugiados. Meu pai precisou ir na frente para roubar comida para nós. Foi uma época muito difícil – disse ele, que à época tinha 8 anos, mas que garante lembrar de tudo com detalhes.

Saddam tentou de todas as formas reprimir os curdos durante os anos que esteve controlando o Iraque. Por isso, quando as tropas americanas chegaram em 2003 para arrancá-lo do poder, os curdos comemoraram. Até hoje, na data que marca o dia da deposição do ex-ditador, celebrações são vistas pela região.

Hoje, o Curdistão é considerado uma região segura para viajantes. Contudo, em agosto deste ano a Turquia bombardeou algumas áreas fronteiriças onde estão alojados os membros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), que luta pela unificação e reconhecimento do Curdistão como um país.

Homem em cemitério com bandeiras do Curdistão

Rebaz me levou para conhecer a Prisão Vermelha, em Sulimani, onde a trupe de Saddam torturou e matou dezenas de milhares de curdos por 30 anos.

– Meu pai ficou preso aqui alguns meses. Meu primo, que era um dos líderes da juventude do PKK, chegou aqui com 17 anos e foi executado aos 21. Ele costumava cantar todas as manhãs o hino nacional curdo – contou-me Rebaz.

– Você é curdo ou iraquiano? – perguntei a ele.

– Sou curdo. Tenho vergonha de mostrar meu passaporte iraquiano quando estou fora do país. Eu não sou iraquiano.

Um fotógrafo curdo que conheci, chamado Hiwa, conhece vários líderes do PKK. Acredita-se que o partido hoje tenha 3 mil militantes escondidos nas montanhas. O grande problema da história é a Turquia, onde está concentrada a maioria dos curdos, cerca de 50%. Desde a revolução turca, em 1923, os curdos são reprimidos. Somente há alguns anos é que eles foram autorizados a, por exemplo, ensinar as crianças nas escolas em curdo ao invés de turco. Passei alguns dias entre as cidades curdas da Turquia. Em Diyarbakir e Mardin percebi o quão diferente do oeste da Turquia aquelas cidades são.

Hiwa me levou para conhecer um bar curdo. O Islã é maioria na região. Por isso, bebidas alcóolicas são raridades e bastante caras. Papo vai, papo vem na mesa do bar, apreciando uma garrafa de Heineken a 6 dólares, começamos a falar sobre as mulheres curdas.

– Este é um bar somente para homens? – perguntei, já que havia uns 200 homens e nenhuma mulher no ambiente.

– Todos os bares são somente para homens. As mulheres não vêm.

A mulher no Curdistão não goza de liberdade. Sexo antes do casamento é intolerável. Filho sem pai é mais do que caso de polícia. Homens raramente têm amigas. As casas de chá, que substituem o que na nossa cultura são os bares, são repletas de homens. Mulheres não saem de casa. Nas ruas, à noite, a proporção é de 1000 homens para 1 mulher. É uma sociedade extremamente machista, na minha opinião.

– Você tem 34 anos, certo? Quantas namoradas já teve? – perguntei, depois da segunda garrafa de cerveja.

– Mulher é um problema aqui – disse ele, desconversando.

– Você já teve relação sexual? – insisti, com curiosidade de repórter.

– Nunca.

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