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Texto: Milton Leal
Fotos: Edson Ribeiro

Um grupo de nativas aguardava a primeira canoa do dia para atravessar o rio. Cheguei caminhando tranquilamente, com meus pés encardidos. Do lado de fora da mochila, dependurado pelos cadarços, meu par de tênis – que no início desta viagem fora tanto exigido – jazia pendularmente, enquanto eu vestia as chinelas impregnadas pelas ruas de areia do pequeno vilarejo de Caraíva.

Formou-se uma fila. Primeiro, embarcaram as senhoras, depois as mulheres, então as moças e, por fim, as crianças, que traziam consigo mochilas escolares. “As mulheres daqui acordam mais cedo que os homens”, pensei, enquanto observava os traços daquela gente índia, mameluca, brasileira.

Com um remo de madeira, o canoeiro deu o impulso que nos desatolou da beirada da praia. Suavemente, deslizávamos para a outra margem. À frente, em direção ao mar, compondo um cenário deleitoso, o Sol nascia resplandecente, vibrando e colorindo as águas findas do rio que deságua no Atlântico a poucos metros dali.

Rio Caraíva amanhacendo

Deixei um recado para S e B. Elas haviam adormecido há pouco, não quis incomodá-las com minha partida.

Mas as coisas findas,
Muito mais que lindas,
Estas ficarão”

Drummond sabia das coisas. Principalmente das coisas findas. Eu voltava para casa depois de três semanas na Bahia.

Do outro lado do rio, tomei um ônibus de quatro horas que recortou as terras desmatadas do sul bovino baiano. Os eucaliptos e as pastagens transfiguram a naturalidade da região, que outrora abobalhou os portugueses. Dormi por toda viagem sacolejante. Acordei em Eunápolis, cidade crescente do quase-sertão. Esperei por horas na sétima rodoviária que conheci e tomei um ônibus para São Paulo. Poltrona 12, corredor. Página 316 de Os Sertões. Viagem prevista de 25 horas. “Vai atrasar umas duas horas”, apostei.

Sentou a moça ao meu lado e perguntou, ainda se ajeitando com seu cobertor vermelho, travesseiro, bolsa, salgadinho, garrafa d’água e palavras-cruzadas:

– Voltando das férias?

Sorri e não respondi. Fiquei em dúvida. Depois disse que não. Ela não entendeu. Nem eu.

Estou no limbo. Nem lá, nem cá. Nem férias, nem viagem. Tecnicamente, eu voltava para São Paulo pela terceira vez no ano. Ninguém volta das férias três vezes ao ano.

O fato é que acompanhei o meu sr. grande amigo Ed em seus 20 dias de férias. Ele havia me ligado em uma sexta-feira enfadonha. Disse que suas férias foram proclamadas vigentes sem mais nem menos e que queria viajar. No domingo, em nosso preferido bar, sentenciamos a terra de Caymmi. Na terça, voamos.

Livre

Salvador nos recebeu chorando. Chovia a garoa que fugíamos. Jogamos sinuca e fomos dormir. Dois mosquitos esmagados abrilhantavam meu lençol na cama de cima do beliche do albergue. “A cidade grande não mais me excita. As multidões não mais me atraem”, pensei, desfazendo um velho acórdão pessoal que exigia o desbrave das grandes capitais.

Perdemos por um milímetro o ônibus para a Chapada Diamantina. Por isso, fomos para detrás da rodoviária comer no restaurante dos taxistas. Três mesas, seiscentas moscas e 8 reais, com suco. “Quer que eu esquente o seu filé?”, perguntou humildemente o dono, dando o melhor de si para atender aqueles sujeitos estranhos, com mochilas acima da cabeça, que não dirigiam carros brancos.

Pouco depois, viajamos para Lençóis, a cidade com maior infraestrutura da chapada. Ônibus confortável, com alguns turistas e motorista agressivo. As ultrapassagens rápidas não me deixaram cochilar.

Novos Baianos no iPod. Mistério do Planeta:

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta”.

Chegamos quase meia-noite. Montamos as barracas ouvindo os grilos daquela noite fresca. Não via nada. O que tinha por trás da escuridão? Que tipo de verde, de montanha, de nuvem, de céu, de urubu, de Sol? Até então, apenas a Lua, bem marcada, e as incontáveis e desconcertantes estrelas.

Eu só quero: Sossego!

O dia mostrou a tônica chapadense: manhã muito nublada e horizonte limitado pela névoa. Mas as montanhas apresentaram-se esverdeadamente lindas. Fomos ao mercado comprar pão e queijo. Sentamos no meio-fio da praça e comemos. Não sabíamos o que fazer, afinal, não houve qualquer planejamento. Batemos papo com guias locais e chegamos à primeira conclusão: a Chapada Diamantina é maior que uma vida inteira. O gigantismo do local nos assombrou.

Subimos a serra do Sincorá para fazer um percurso considerado simples, que não exige o acompanhamento de guia, e que fora desenhado em um sulfite pela agradável e benevolente guia que nos mostrou as atrações do Parque Nacional. A ideia era conhecer as cachoeiras do Serrano, Primavera, Cachoeirinha, subir até o mirante, onde veríamos a cidade, a singela cachoeira do Grisante e terminar nos salões de areia. Erramos o caminho e não encontramos a Primavera, tampouco os salões de areia. Mas o primeiro banho gélido, reconfortante, veio à tona na Cachoeirinha. Sensação de relaxamento instantâneo, depois de caminhar cerca de 10 quilômetros no primeiro dia.

O dia seguinte nos apresentou a um sujeito que marcaria nossa passagem pela chapada. Baixinho, troncudo, de canelas finas e secas, fala malemolente, risada escandalosa e gírias e expressões inesquecíveis, Washington é a personificação do bom baiano. Foi com ele que passamos quatro dias caminhando 50 quilômetros pelo Vale do Pati, a atração-mor da chapada, fizemos o percurso de 14 quilômetros para conhecer a exuberante cachoeira do Sossego, subimos o rio Santo Antônio em meio ao mini-pantanal chapadense e nos deliciamos no inabitável e magnífico Poço Verde.

Carregando a cruz

– Você gosta do que faz? – perguntei, enquanto pulávamos grandes rochas sedimentares, deslocadas pela ação dos garimpeiros que exploraram por várias décadas a rica região de diamantes.

– “Cê é lô qué?” – respondeu retoricamente, lançando mão de sua expressão regionalista preferida.

Nos conhecemos na entrada para a trilha do Sossego. Ele guiava um grupo de europeus endinheirados, quando perguntei se poderíamos acompanhá-lo. Sem cerimônias, nos aceitou de braços abertos e seguimos pela agressiva vegetação camaleônica da chapada.

Água de beber, Camará!

W. foi uma criança de sorte. Pôde brincar em um quintal de 38 mil quilômetros quadrados repleto de paisagens ludibriantes. Quando tinha 13 anos, começou a guiar turistas pela Diamantina. Hoje, tem 28 anos e construiu com seus próprios punhos uma singela, mas aconchegante pousada. Mora nos fundos em um cômodo mal feito e improvisado com sua esposa, responsável pelo farto e abaianado café da manhã. Seu filho, pequeno prodígio de sete anos, já é capaz de guiar turistas para uma série de lugares e percorreu diversas vezes a árdua trilha do Pati.

Piscinas do Roncador

W., sem dúvida, faz o que gosta. Ficou incontido quando falei dos planos de fazer a trilha X, depois a Y e por fim a Z. Ele coloca o dinheiro em segundo, às vezes, terceiro plano. Nos cobrou pouco quando comparado às ofertas de outros guias que nos abordaram em Lençóis. Não porque seja tolo ou inexperiente, muito pelo contrário. Ele o faz porque tem prazer de “se enfiar no mato”, como ele mesmo diz.

Vale do Pati, visto do morro do Guiné

W. caminhava suave, pisava sem colocar os pés nos chão. Por horas e dias, segui seus passos, ora rápidos, ora vagarosos. Curiosamente, dizia a cada hora que estávamos prestes a chegar ao lugar mais bonito de toda chapada. Não sei se o fazia conscientemente ou se em sua mente a beleza se confundia repetidamente. Para mim, hierarquizar aqueles cenários tornava-se missão claudicante.

Morro do Castelo, Vale do Pati

– Você faz o que gosta. Poucos podem – disse a ele, enquanto conversávamos sentados na soleira da singular igreja erguida no Vale do Pati, no sopé do morro do Guiné, de frente para os morros Branco, do Castelo e Sobradinho.

– Eu sei – respondeu, sem dar tanta importância ao que eu tentava lhe explicar.

Gerais do Vieira

Fomos embora repentinamente. Nossos músculos estavam moídos e os tornozelos doloridos. Caminhamos imensidões, bebemos da água de mais de uma dezena de lindas quedas naturais, vimos passar rasante um sem-número de aves. Estávamos satisfeitos.

Rio Santo Antônio

Sentenciei que são preciso duas coisas para conhecer a Diamantina: pernas e tempo, em demasia ambos.

Vale do Pati de baixo

W. ficou surpreso com nossa decisão. Tínhamos mais trilhas a fazer. Prometi que voltaria logo para desbravarmos outros rincões. Agradeci-lhe profundamente, afinal ele não havia sido um guia e, sim, um companheiro de viagem.

Cachoeirão visto de cima

Começamos a descer a Bahia. Cruzamos para Feira de Santana. Depois tomamos um ônibus noturno para Ubaitaba. De manhã, subimos no coletivo que rumava à Itacaré. Viagem trepidante de 60 quilômetros, três horas e poucos minutos. Peculiaríssima. O caminho era uma estrada de terra que corta a mata atlântica remanescente. O motorista parava a cada cinco minutos para embarque e desembarque.

Coqueiros tomando sol

Itacaré foi a transição da natureza bucólica para a natureza pulsante. Nos embriagamos sexta e sábado. A primeira noitada de forró veio pulsante. A consequente ressaca me fez iniciar uma conversa com o recepcionista do albergue. De sotaque engraçado, o brasileiro radicado na França estava de volta ao país depois de 17 anos. Tinha um diploma de mestre em ciências sociais, falava quatro línguas e reclamava que não conseguia arrumar emprego em São Paulo, onde nasceu e pretendia voltar tão logo.

Itacaré indo dormir

O clima surfista-requintado nos fez pegar a estrada em um domingo ensolarado. Um ônibus para Itabuna, outro até Porto Seguro e uma balsa para Arraial D’Ajuda, a praia insuportavelmente chique que congrega mauricinhos de camisa polo laranja e sapatênis e dondocas de maquiagem forçada que tivemos que pernoitar. De manhã, bem cedo, saiu o ônibus para Caraíva. Outros 60 quilômetros em quatro horas até o pequeno vilarejo do início desta história.

Boa noite, Caraíva!

Encontramos o camping mais barato e começamos a montar as barracas. O lugar estava aparentemente bastante vazio. Mas pela lei natural dos encontros, S. saiu de sua barraca e puxou conversa com o Ed. Meia hora depois, tomávamos café da manhã juntos. B. se juntara a nós. Elas eram de São Paulo. Desconstruíram toda e qualquer tese de que as paulistanas são as mais nojentas e retraídas. Foram amáveis. Desconfiei a princípio, confesso.

Eu e Os Sertões

S. é do grupo das extrovertidas. Fala com o vento na falta da brisa. Feminista moderna, juntar-se-ia às ucranianas em qualquer protesto. B. tem o olhar risonho e o jeito de quem ainda não acredita na maldade. Elas vivem a boa vida da aristocracia. Mas o fazem asceticamente, o que as tornam agradáveis. Viramos um quarteto inseparável. Cozinhamos todos os dias em uma sorte de mutirão eficiente. Elas nos guiaram até a praia do Satu, nos convenceram a ir até a Ponta do Corumbau em cima de bugues e não acordaram nenhum dia para nos acompanhar nas noitadas de forró que em Caraíva começam efetivamente à 1h. Enquanto contávamos detalhes sobre nossas vidas, eu pensava quão distinto seria se eu as tivesse conhecido em uma festa qualquer em São Paulo. A chance de não termos sequer transplantado os cumprimentos iniciais seria enorme.

Da série: Pequenez humana

Ainda de acordo com a lei natural dos encontros, S. e B. conheciam J., que também estava de férias em Caraíva. J. viajava com D., que me conhecia de outras contingências em São Paulo.

No final das contas, éramos todos seres de 20 e poucos torrando na areia baiana.

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