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Dentro da sacola plástica, havia uma calça preta de brim que parecia ser um ou dois números maior. A camiseta polo cor de amarelo mostarda trazia dois botões, detalhes em vinho na gola e duas listras brancas que desciam pelos ombros e circundavam a manga. O boné de tecido mole com a pequena logomarca completava a indumentária. Do Brasil, eu havia trazido um sapato preto, de sola grossa, o mais confortável que havia na loja, conforme me convenceu o vendedor.

Me vesti enquanto duas chinesas comiam hambúrgueres e batatas fritas na antessala do vestiário masculino, um pequeno entreposto da sala de descanso dos funcionários e os banheiros. Dezenas de sapatos ocupavam uma estante imunda naquele cubículo. Um espelho mostrava o novo personagem que se apresentava. Um relógio branco pendurado por um prego saliente dizia se era hora de descer e encarar a fome do povo irlandês.

Restavam-me 15 minutos. Sentei na poltrona ao lado das moças e vi minha ansiedade subir à goela. Enquanto falavam, me olhavam timidamente. A mais magra delas puxou a conversa perguntando de onde eu vinha. Não pareceu nada animada com a resposta. A próxima pergunta eu não entendi. Ela reformulou, gesticulou, repetiu várias vezes e depois olhou com cara de desprezo para a amiga que ria da minha falta de habilidade com a língua local.

O relógio marcava 10 para as 11. Decidi descer e me apresentar ao trabalho. Fechei a pesada porta que dava acesso aos andares de cima do restaurante e caminhei por todo o salão, onde pessoas de toda a sorte devoravam seus combos de sanduíche com coca-cola. Esgueirei-me pelo balcão e adentrei a cozinha. Ao fundo, na sala da gerente, três pessoas discutiam os números de algumas planilhas. Fiquei do lado de fora, até Irina, a ruiva da Letônia responsável por me contratar, perceber e fazer um gesto com a mão mostrando um relógio de pulso inexistente, querendo dizer que ainda não era a hora para começar o trabalho. Mais tarde entenderia que cada minuto conta e muito nas finanças e na operação de uma rede de fast-food.

Um chinês, vestindo gravata, o que concedia a ele o título de supervisor, se apresentou e começou a falar muito rapidamente. Me levou até a pia e mostrou um passo-a-passo de como lavar as mãos antes de começar o turno. Fiquei 5 minutos esfregando as unhas com uma escova, passando dois tipos diferentes de sabão, fechando a torneira com o papel toalha para não ser contaminado por bactérias, até ele dizer que eu deveria fazer aquilo de hora em hora. Fiquei assustado com a neura higiênica do rapaz.

Irina retornou e me deu um pequeno crachá com meu nome impresso. Coloquei minha mão em um leitor de digitais e oficialmente começava a ganhar meus primeiros centavos de euro como operário do Burger King. Minha função inicial era a mais básica de todas. Eu devia recolher as bandejas, limpar as mesas, arrumar as cadeiras, varrer o chão, retirar o lixo, limpar os banheiros e qualquer outra atividade de limpeza braçal que o gerente do turno ordenasse.

Era uma terça-feira fria em Dublin, pouco antes do horário do almoço. O restaurante estava quase vazio. Eric, o chinês de gravata, me chamou no balcão e pediu para eu verificar os banheiros.

– Milton, check the toilets! – disse ele, com tom imperativo, como se estivesse dando o troco em um inimigo.

A brasileira que estava operando o caixa fez questão de traduzir e ter certeza que eu havia entendido o que era para fazer. Dei meia-volta e desci as escadas que davam acesso a parte de baixo, onde um outro salão com mais 80 cadeiras era utilizado para atender a demanda dos bêbados e bêbados que se faziam presentes nas madrugadas agitadas da região. Não havia ninguém ali aquela hora. Caminhei mais um pouco até o recuo onde ficavam os banheiros masculino, feminino, o depósito e a sala de compressão de lixo, que fedia a metano.

Entrei no banheiro e no chão branco que era escovado todos os dias, jazia um homem deitado de barriga para cima, rosto colado ao assoalho, braço esquerdo estendido e uma seringa pendurada em sua veia. Tomei um susto fenomenal e corri de volta para o balcão, chamando pelo gerente. Com poucas palavras, disse que tínhamos “problems” lá embaixo. Ele tentava me entender, e já nervoso perguntava à brasileira o que eu queria dizer.

– Tem um maluco ensanguentado tomando um pico lá no banheiro – falei em português para a moça, que começou a rir e resumiu para Erick a situação com uma palavra.

– Heroin!

O chinês fechou o semblante e correu para ele próprio checar o banheiro. Em 20 minutos, apareceu uma ambulância. Retiraram o corpo do homem que tremia e apresentava uma face alva-esverdeada. Erick pediu então que eu interditasse o banheiro e fizesse uma limpeza completa. Coloquei as luvas e limpei o sangue que se impregnava nas juntas do piso.

10 meses depois, às quatro horas da manhã de uma quinta-feira muito gelada, eu descia a Grafton Street e aos prantos gravava uma mensagem no celular de Michel, o melhor amigo que fiz no país ao longo daquele ano de 2007.

– Acabou! Consegui – comemorei

Trabalhar no Burger King foi o que me permitiu voar. Mas sofri muito. O trabalho era pesado, ingrato, cansativo, virei noites e mais noites em ritmo alucinado de produção. Aos poucos, ganhei a confiança de todos, inclusive dos chineses, que eram considerados como intratáveis. Quando fui embora, recebi um beijo e um abraço de todos. Mantive contato com algum deles por um período. Meu melhor amigo no trabalho era um paquistanês brincalhão que me ajudou em inúmeras oportunidades e que ainda promete que um dia virá me visitar.

Atravessar a O’Connell Street e subir a Grafton era o meu caminho da labuta. Era também a minha estrada para o mundo.

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