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Desde o último dia 16 de dezembro, tenho feito sistematicamente um exercício de memória. Tento relembrar o que eu estava fazendo exatamente há um ano, quando saímos de casa com um carro cheio de tralhas para filmarmos um documentário sobre uma viagem ao Acre. A primeira pessoa do plural refere-se aos amigos Bruno Graziano, Paulo Silva Junior e Raoni Gruber, com quem dividiria 45 dias de muitas histórias.

Reconstruí o trajeto na cabeça: saímos ainda de madrugada, passamos a primeira noite em Campo Grande, depois Cuiabá, Vilhena e o último pernoite em Jaci-Paraná, perto de Porto Velho. O almoço do quinto dia foi na casa da família de Francisco, nosso primeiro entrevistado, que vive logo após a placa que diz: seja bem-vindo ao Acre.

Os cinco dias de carro de São Paulo a Rio Branco foram extremamente importantes. Quando se tem tempo, é melhor seguir por terra. É mais natural. Como digo, voar é uma distorção do tempo e do espaço.

Vi passar o terreno brasileiro que corta praticamente a espinha dorsal da América do Sul. As pessoas mudam bastante. Mudam para melhor, na minha opinião.

No dia 24 de dezembro – portanto há um ano – , estávamos nós quatro dentro da comunidade onde Chico Mendes orquestrava as manifestações pacíficas dos caboclos da floresta, que viviam da extração do látex da seringa e da castanha. Na década de 80, eles eram alvos da lascívia dos que derrubam árvores para abrir pastos. A estratégia daquele sujeito baixinho, bom de copo e ainda mais de conversa, como nos diriam depois, era reunir um grande grupo de pessoas – homens, mulheres, crianças e anciãos – e promover os “empates”, ou seja, bloquear áreas passíveis de serem desmatadas promovendo uma corrente de pessoas com as mãos dadas.

O seringal Cachoeira fica a poucos quilômetros de Xapuri, onde Chico Mendes foi brutalmente assassinado no final de 80 por um fazendeiro que ainda continua na região e curiosamente possui respeito ante diversos munícipes. A morte do pacifista ambiental foi notícia comparável à morte de Niemeyer. Mas comprovadamente ele não é unanimidade na pequena cidade. As opiniões são diversas. As histórias sobre ele são muitas. Ouvimos que ele bebia muito e que não gostava de trabalhar. Mas que importa? Se sim ou se não, ele contribuiu de outra maneira para o mundo. Seu discurso ecoou. A floresta começou a ser enxergada de outro prisma.

Um acordo que fizemos com o governo estadual nos permitiu dormir na pousada que construíram para os poucos e ávidos turistas que querem conhecer a história do movimento vanguardista de preservação amazônica. Ali, conhecemos Nilson Mendes, primo do revolucionário, que nos serviu primeiramente como um excelente personagem para o filme e depois como um amigo ao nos levar para dentro de sua casa e trocar presentes conosco.

Era véspera de Natal. Nilson queria que participássemos da ceia da comunidade. Para o filme, aquilo seria esplêndido. Registrar as tradições daquela gente seria muito enriquecedor. Combinamos que iríamos e já depois de o Sol se pôr, voltamos à pousada para descansar um pouco antes da festa.

Comecei a sentir o que sinto agora. Os momentos que antecedem o Natal são para mim intermináveis. Sinto repulsa. “Feliz Natal”, nunca gostei de dizer.

Naquela noite, entramos no carro para seguir até a escola do povoado, onde estariam as famílias. Decidimos ir mais cedo, por voltas das 22h, para nos ambientar. Meu estômago borbulhava. Eu não queria ir. Mas não disse nada. Passamos com o carro pelo lado de fora e pouquíssimas pessoas estavam ali. Rapidamente, disse para voltarmos à pousada e retornar mais tarde. “As pessoas devem estar tomando banho e se arrumando”, disse. Acabei os convencendo.

Voltamos e tomamos algumas cervejas na pousada. Combinamos de ir perto da meia-noite. Sairíamos do carro gravando, sem aviso prévio. Sabíamos que Nilson estaria ali e conduziria as apresentações. Novamente, seguimos pela estrada de terra até a escola. Eu estava aflito e tentava desistir de várias formas. Paramos o carro perto da entrada. Raoni ligou o gravador. O Bruno disse que a câmera estava pronta. O Junior queria ir. Eu refuguei. Não gravamos. Voltamos e dormimos.

No outro dia, senti um clima diferente entre nós. A culpa era minha.

Justifiquei dizendo que não queria atrapalhar a festa daquelas pessoas. Disse que seria uma invasão. Não me lembro bem, na verdade. Mas o fato é que eu não gosto do Natal.

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