Tags

,


Exatos 4426 dias se passaram desde a última vez que olhei para aquele céu cinza.

“Ele continua o mesmo”, logo pensei.

“Mas eu mudei profundamente”, conclui em seguida.

O menino que outrora chegara com cara de assustado, voltava depois de todo esse tempo com barba no rosto, um sorriso de palhaço e lágrimas de orgulho.

Se há mais de seis anos eu pisava na terra celta sem falar uma frase sequer em inglês, agora eu retornava de cabeça erguida e com uma revista debaixo do braço que mostrava a minha primeira reportagem assinada em inglês.

———————–

Por 10 minutos seguidos, eu chorei copiosamente – com direito a soluços – dentro do banheiro do Burger King. Do momento em que comecei a subir a Grafton Street até o encontro com aquele vaso sanitário que eu tanto limpei, senti uma das mais fortes – e gostosas – emoções de toda minha vida.

Simplesmente indescritível.

Rever Dublin foi como viajar em uma máquina do tempo. Por várias vezes, achei estar revivendo o ano de 2007. Pensava ter 18 anos.

“Boca, você não é mais a mesma pessoa”, repetiu por várias vezes o meu grande amigo paquistanês T., enquanto almoçávamos.

Não sei a exatamente ao que ele se referia, mas ele estava completamente certo em dizer aquilo.

Eu não sou mais o mesmo.

———————–

“Mas quem consegue ser a mesma pessoa depois de tanto tempo?”, pensei novamente.

A conclusão viria parte em Dublin e parte no Rio de Janeiro, menos de duas semanas depois do meu retorno.

———————–

Ao entrar naquele comprido salão cheio de mesas do Burger King, fui avistando ainda que de longe algumas pessoas conhecidas. “Sim, eles continuam aqui ainda”, pensei. Era por volta das 13h, horário considerado tranquilo para aquela unidade do BK, que costuma fervilhar realmente durante as madrugadas.

Nada mais que seis pessoas que estavam atrás do balcão haviam trabalhado comigo naquele ano de 2007. E mais: muitos deles já estavam trabalhando para a corporação de hambúrgueres há mais de cinco anos quando eu vesti pela primeira vez aquele boné.

Eles continuam sendo as mesmas pessoas que eram há mais de seis anos.

———————–

Ao reencontrar meus amigos do Rio, nominadamente minha irmã-viajante G. e o pai dela, P., rumamos ao Maracanã para assistir a um minguado jogo de quarta-feira entre Fluminense e Corinthians. Quando o P. me convidou para ir ao jogo, um dia antes, eu aceitei prontamente. Depois da bela sensação que senti ao rever um lugar depois de tanto tempo, logo fiquei curioso para saber o que aconteceria comigo quando eu subisse a arquibancada depois de tantos anos. [Para os que não sabem, sou um dos dissidentes que deixaram as arquibancadas depois daquele fatídico jogo entre Corinthians e River Plate – quando, mesmo muito longe da confusão, eu achei que todos fossem morrer e passei a questionar a função não do futebol, mas do torcedor de futebol no mundo moderno]

Pois, pode parecer mentira, mas ao chegar ao Maracanã, eu me sentia até que relativamente equilibrado, não fosse por um golpe do destino.

Enquanto eu comprava o meu ingresso em um dos guichês, literalmente no guichê ao lado estavam os rapazes que costumavam me levar ao estádio, incluindo meu tio, que tanto me levou aos jogos do Corinthians.

Eles também continuavam os mesmos.

Lá dentro, vi um novo tipo de torcedor, um novo tipo de futebol, um novo tipo de estádio, mas algumas pessoas ainda eram as mesmas. Revi vários rostos que me eram habituais. Inclusive o rosto do homem que me introduziu ao jornalismo. Poucos sabem, mas minha estreia no jornalismo se deu na pele de um informante. Eu contei a um repórter de jornal quem havia assassinado um torcedor palmeirense durante um clássico que ocorreu no Morumbi em 2005. Aquele mesmo sujeito estava no Rio. E ele me cumprimentou com um aceno de mão.

———————–

Dublin continua a mesma, com sua aura de festa inacabável.

O Corinthians continua grande e imponente como sempre foi.

As torcidas organizadas continuam desorganizadas como sempre foram.

E eu não continuo nada, pois talvez eu tenha nascido para não continuar nada.

Anúncios