No aeroporto de Guarulhos, a atendente da Ethiopian Airlines perguntou:

– O senhor está indo ou voltando?

– Indo. Destino final, Mumbai – respondi.

– Mas o senhor não tem passagem de volta?

– Não, não tenho.
INDIA-ATTACKS-1YEAR

A moça se levantou da cadeira e foi atrás de um sujeito que parecia ser seu chefe. Alguns segundos depois, ele veio em minha direção e disparou:

– Senhor, me desculpe, mas sem passagem de volta não podemos embarcá-lo. São regras da companhia. Sem passagem de volta podem negar sua entrada no país. Se isso acontecer, nós pagamos uma multa altíssima.

Meu sangue subiu. Fiquei nervoso. Comecei a rebater o cara. Era óbvio que ele estava tentando me empurrar um bilhete de volta.

O meu voo para Índia, com escalas no Togo e na Etiópia, havia custado 899 dólares. Atravessar dois oceanos por esse valor parece piada.

O sujeito pegou meu passaporte, abriu em uma página qualquer e perguntou:

– Quando o senhor foi a Paris, o senhor tinha passagem de volta?

– Não sei. Não lembro. Pouco importa. Se eu não entrar no país, o problema é meu e não de vocês.

– Qualquer companhia não vai deixar o senhor embarcar somente com o bilhete de ida – ele insistiu.

– O que você está dizendo não faz o menor sentido. Eu vou embarcar e ponto final. Caso contrário, chamo a Polícia Federal.

Eu sabia o que estava dizendo. Essa história de bilhete de volta aplica-se somente em alguns casos.

– Eu já entrei em vários países sem passagem de volta – afirmei, deixando o rapaz sem palavras.

– Eu vou consultar meus superiores para ver o que podemos fazer – disse ele, retirando-se com o meu passaporte nas mãos.

Tatiana, a atendente da Ethiopian Airlines que estava encarregada do meu check-in, olhou para trás para ver se ninguém estava por perto e abriu o coração.

– Eu adoraria fazer o que você está fazendo. Meu sonho é largar tudo e sumir. Odeio esse trabalho. Mas deus colocou uma filha na minha vida. Não posso mais fazer isso.

Tatiana é mais uma infeliz que prefere fazer o que não gosta em troca da vida segura que o capitalismo lhe promete. Mas ela é uma infeliz consciente. E isso a difere da horda de infelizes que se acham felizes, mas não passam de seres humanos enganados pela promessa da vida tranquila que, de acordo com o senso comum, o dinheiro pode proporcionar.

O sujeito voltou com o meu passaporte e com uma folha para eu assinar.

– Senhor, para que possamos embarcá-lo, por favor assine esta declaração que diz que o senhor está viajando sem toda documentação necessária.

Eu li o papel, ri e assinei. Peguei meu bilhete de embarque, passei pela primeira lixeira que encontrei, joguei fora a declaração e fui pegar o voo ET 507.

O avião, um Boeing 787 Dreamliner, considerado o mais moderno do mundo, estava vazio. “Parece que o itinerário São Paulo-Togo-Etiópia ainda não caiu nas graças dos brasileiros”, pensei.

A maior parte dos passageiros era de origem africana. Dos poucos que estavam a bordo, segundo o empurrador-de-passagem-de-volta, sete estavam sendo deportados porque chegaram a São Paulo sem visto – ou seria sem passagem de volta?

De São Paulo a Lomé, capital do Togo, fui dormindo esparramado na fileira de três poltronas. Acordei quando estávamos aterrisando na costa oeste da África. Da janela, vi aquela imensa planície alaranjada pelo Sol mais quente da Terra.

A maioria dos passageiros desceu no pequeno aeroporto da República Togolesa. Minutos depois, o avião foi enchendo. A Etiópia é um dos países mais importantes da África. É considerada a capital política do continente. O voo decolou rumo a Adis Abeba completamente cheio.

A chegada na capital etíope foi tranquila, mas devido ao horário da minha conexão para Índia, tive que correr – e muito – para não perder o voo. Da Etiópia para Índia, poucos passageiros novamente. Dormi.

Meu relógio biológico estava completamente atordoado. Havia saído de São Paulo na noite de sábado e chegava em Mumbai às 4h de uma segunda-feira.

Na imigração, as mesmas e enfadonhas perguntas de sempre e pronto, mais um carimbo.

Dentro de um rickshaw, a toda velocidade, com um sorriso largo, gritando de felicidade, vendo esta louca Mumbai acordar, pensei em presentear o sujeito da Ethiopian Airlines com uma passagem só de ida à Índia.

Talvez seja isso que ele precise.

Mumbai 2

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