hippie bus

John, are you up there?

John é um senhor britânico que está “aposentado”, como ele faz questão de frisar, há quase 50 anos. O desfecho do seu último dia de trabalho, ele me contou em uma tarde de dezembro, no calor apavorante do verão de Buenos Aires, lá no bairro de San Telmo, na calle Chacabuco, número 1080.

Eu estava sentado no sofá roxo, como de costume. Ele estava do outro lado da mesa de centro, em uma cadeira de madeira, com as pernas cruzadas, e um leitor de livros digitais descansando sobre seu colo. Um ventilador nos ajudava a sobreviver.

O velho inglês então falou:

– Quando saí da London School of Economics, com notas altíssimas, depois de um longo tempo naquele antro de micróbios capitalistas, rapidamente fui parar na bolsa de valores de Londres. Passei a conviver e negociar com milionários a todo instante. Eu literalmente via o dinheiro correr de um lado para o outro. Eu era ágil e eficiente para fechar as transações. Ganhava um salário alto, que me permitia acumular capital. Desde menino, nunca gostei de consumir. Sempre vivi de forma simples com minha mãe às custas da pensão de meu falecido pai, morto na guerra. Oh! Que tragédia horrível. Depois lhe conto esta história. Na bolsa, trabalhei por três anos. Até que um dia, tomando um café antes de ir ao trabalho eu tive a brilhante ideia de me aposentar. A verdade é que eu não gostava do meu ofício. E eu sabia que o dinheiro que eu havia guardado, apesar de não ser tanta coisa assim, poderia me sustentar pelo resto da minha vida se eu soubesse utilizá-lo de forma certa, ou seja, gastando pouco e investindo. Assim, aos 27 anos, eu decidi largar o primeiro e único emprego de minha vida e me aposentar. Decidi que viajaria o mundo vivendo com uma renda mensal gerada por investimentos que eu realizaria ao longo dessa jornada. Pequenos investimentos em diversos lugares do mundo. O resultado dessa ideia maluca é que estou viajando desde então. Já estive em mais de 160 países nessas últimas quase cinco décadas. Ajudei muita gente pelo mundo. Tenho muitas casas onde ficar, posso lhe assegurar. E continuo vivendo com pouco. Hoje me dou direito a um salário mensal de 500 dólares. Sou um velho mochileiro. Sei que você conseguiria sobreviver com 100 ou 200 dólares, mas esta fase já passou para mim. De qualquer forma, quase sempre me sobra algum dinheiro e o reinvisto imediatamente. Quanto mais tempo fico em um lugar, menos gasto. É possível viver com esse dinheiro em qualquer lugar do mundo. Quando eu era jovem, eu vivia com muito menos que isso. Nos anos 60 e 70, eu era um hippie, um “hippie investidor” vamos chamar assim. Eu só tinha uma pequena mochila com alguns pertences, mas meu dinheiro só multiplicava. Quanto menos gastava, mais meu dinheiro crescia. Se eu fazia algum tipo de trabalho não aceitava dinheiro como pagamento. Andei pelos Estados Unidos muitos anos, em 1968, por exemplo, eu estava lá, depois fiquei 5 anos nas montanhas do Nepal, outros vários anos na Índia, fixei residência depois no Afeganistão, onde ganhei muito dinheiro, Nos 80, viajei a Ásia oriental, fiquei muito tempo na China. Nos anos 90, eu vaguei por diversas partes da Europa e passei longas temporadas na Austrália. Ganhei muito dinheiro por ali também. Em 1999, conheci minha namorada em Hong Kong. Ela é linda, inteligente e toma conta dos meus negócios. Atualmente, meu patrimônio, gerado a partir de vários investimentos que fiz ao longo de minha vida viajando, está avaliado em 4 milhões de dólares. Tenho analistas trabalhando para mim em três pequenos escritórios pelo mundo. Um deles é aqui do lado, em Montevidéu. E esse é o motivo pelo qual estou em Buenos Aires falando com você. Vim passar uns dias desse lado. Esse hostel me parece bastante decente, você não acha?

– É um ótimo lugar. Sempre venho aqui e acabo conhecendo pessoas ilustres como o senhor, um eterno viajante. Que honra – afirmei, tentando o meu melhor sotaque britânico.

Levantei do sofá roxo e fui para a mesa do café da manhã. Do meu lado, Lucho González perguntou o que o velhote havia dito.

– Que ele tem 4 milhões de dólares e que está viajando há 47 anos – falei, enquanto enchia um pedaço de pão com doce de leite. Lucho começou a gargalhar alto e bater na mesa.

Ele achou que eu estava brincando. Quando reafirmei que ele havia me contado uma coerente história de como ele fez dinheiro a partir de um montante que ele juntou enquanto jovem e investiu em várias partes do globo, o argentino fechou a cara e disparou: “Mentiroso de mierda”, para depois completar:

– Por que alguém que tem 4 milhões de dólares dorme em um quarto sem ar-condicionado com outras cinco pessoas nesse calor sufocante?

“Para viver com menos de 500 dólares por mês”, pensei comigo, mas não disse nada. Depois de mais algumas fatias de pão com doce de leite, voltei ao sofá roxo para fazer perguntas aquele senhor. Eu estava intrigado e curioso. Coisa de repórter.

Entrevista:

Você está viajando há 47 anos sem parar? Não voltou a Londres?

Londres é onde está um dos meus escritórios. Ainda tenho uma casa em Londres, a mesma na qual minha mãe e eu vivíamos. Quando preciso, por algum motivo, fico nessa casa. Voltei poucas vezes à Inglaterra. Respondendo sua pergunta, eu considero que estou viajando desde o dia em que me aposentei.

E como você acumulou 4 milhões de dólares?

Criando projetos de investimentos com pessoas que conheci ao longo das minhas viagens. Basicamente, confiando nas pessoas e no poder que o dinheiro tem de gerar mais dinheiro. Economia é difícil só para quem não entende. Quem entende, se diverte.

E você não gasta esse dinheiro que você acumula?

Não, pelo contrário. Meu objetivo último é capturar todo o dinheiro do mundo e retirá-lo de circulação. Eu continuo fazendo mais e mais dinheiro. Adoro ouvir propostas de investimento. Você tem alguma para mim? Conhece alguma empresa na bolsa de valores no Brasil que podemos investir? Mas tem que ser pouca grana, não pode passar de mil dólares. Que acha? Se você quiser, a gente pode marcar uma videoconferência com a minha namorada. Ela é linda. Fala nove línguas. Extremamente cuidadosa com a contabilidade do meu dinheiro. Ela cuida de tudo. Às vezes, viajamos juntos.

Como assim, podemos investir? Você nem me conhece.

Isso não é problema. Primeiramente, eu vejo que você é um viajante. E todo viajante é honesto com outro viajante. Ou ao menos deveria ser. Eu confio em viajantes. Já fui passado para trás por alguns, mas é como eu costumo dizer: se a cada 10 investimentos que eu fizer cinco falharem, eu ainda tenho uma grande chance de cobrir a perda e gerar lucro com os outros cinco empreendimentos.

E neste momento, quando aquele senhor misterioso me convidava para ser seu parceiro de investimento no Brasil, o fornecimento de energia elétrica foi interrompido e o ventilador parou de rodar.

– Shit! Esse lugar vai ficar muito quente agora – reclamou John, levantando-se com a desculpa de que iria tomar uma ducha de água fria para resfriar. Antes de sair da sala, ele pegou um pequeno pedaço de papel e escreveu seu e-mail. Coloquei o papel no bolso sem olhar e deitei no sofá roxo, fatigado pelo intenso calor.

O último verão argentino foi literalmente um inferno. O calor beirava os 45ºC e cortes de energia eram mais comuns que gotas de suor em minha testa. Ficamos vários dias sem energia elétrica. E John, apesar de seu discurso frugalista, resolveu mudar de hostel porque não havia alma sã que conseguia dormir naquele calor sem um mísero ventilador girando em sua cara. Aliás, quase todos os hóspedes preferiram mudar de hostel. Eu fiquei.

– Lucho, eu estou pensando na história do John. Eu acho bastante provável que ele está falando a verdade. Ao mesmo tempo, ele pode muito bem ser um louco que inventa histórias por aí. Mas o fato é que em teoria, a história é factível – confessei, intrigado, ao recepcionista do hostel.

– Eu duvido. Eu trabalho aqui e vejo esse tipo de gente por toda parte. Outro dia tinha um maluco aqui se dizendo ser o Bukwoski.

– É, eu entendo. Mas eu ainda vejo muito nexo na história contada por John.

Desde aquele dia que o inglês me contou aleatoriamente sua história de vida e me convidou para realizar investimentos no Brasil, eu comecei a pensar quanto seria necessário juntar para se aposentar e viajar o mundo, assim como ele fez.

Tomei a decisão de fazer esta pesquisa em campo. Em março, três meses depois de conhecer John, voei para a Índia para descobrir o preço de uma eventual aposentadoria precoce.

Acá já estou há quatro meses e acho que agora posso fazer algumas considerações sobre a viabilidade do plano de John.

Minha conclusão é que na pior das hipóteses, um brasileiro que atualmente queira se aposentar e viajar o mundo de forma simples e barata precise de no máximo R$120 mil na conta poupança. Com esse valor, ele consegue sem maiores problemas R$600 líquidos por mês de rendimento, o que lhe permite viver decentemente na Índia, por exemplo. O que John não mencionou é que pode levar algum tempo até que o viajante se adapte à cultural local e entenda como viver bem de forma barata. Nos primeiros três meses na Índia, gastei em média cerca de R$1000 (não estou incluindo gastos com álcool, que aqui é caríssimo). No quarto mês, quando parei de viajar e fixei âncora em Bangalore, reduzi o custo bruscamente. Meu aluguel na casa de uma família indiana custa R$160 por mês, e eles sempre me oferecem comida, o que faz com que eu não gaste muito para comer. Mesmo quando saio para comer, não gasto mais que R$2 reais em uma refeição. Nos últimos 30 dias, consegui passar o mês com R$600. Ou seja, se eu tivesse R$120 mil na conta, em teoria eu poderia me aposentar hoje. Não é o meu caso. Mas eu chego lá.

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